Por que os livros têm 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 impresso no verso da folha de rosto?

Today I Found Out é um site que explica coisas. Traduzo aqui um texto deles sobre os misteriosos números sequenciais que aparecem em alguns livros.

É interessante fazer um adendo: além da sequência numérica citada no texto, também podemos nos guiar pelo ISBN de uma obra: cada nova edição exige um número de ISBN novo; mas as diversas impressões de uma mesma edição terão sempre o mesmo ISBN.

Num mundo ideal, em que os editores identificam sua produção de forma padronizada, uma “edição” é toda obra que tem alteração substancial — seja de apresentação (um mesmo conteúdo apresentado em formato digital ou impresso, por exemplo) ou seja de conteúdo (supressão ou adição de capítulos, nova revisão do texto, etc) — e, portanto, tem um ISBN próprio. Já uma nova impressão é apenas isso mesmo: acabaram os estoques daquela obra, e, portanto, foi necessário imprimir mais uma nova quantidade — sem alteração.

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Jillian E. pergunta: No começo dos livros, na página onde é dito o editor e estas coisas [N.T.: no jargão, essa página se chama “verso da folha de rosto”] existe uma sequência de números até 10. Me pergunto por que eles foram colocados lá. Obrigada!

A linha numérica, ou chave do impressor, geralmente vista no verso da folha de rosto dos livros, é simplesmente um método de controle que ajuda a identificar o número de impressão do livro e, em alguns casos, o ano de impressão de um livro específico e que pode ou não diferir da data original de copyright citada em outros lugares da página.

Exemplos comuns destas linhas numéricas incluem:

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

ou

2 3 4 5 6 93 92 91 90

ou

3 4 5 6 7 8 9 10 MPC 19 18 17 16

ou até mesmo

1 3 5 7 9 10 8 6 4 2.

Enquanto diferentes editores usam diferentes convenções para estas linhas numéricas, geralmente o menor número da linha indica a impressão de um livro. Então, se 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 está no pé da página, trata-se de uma primeira impressão; se o número um foi removido, e então a linha numérica é 2 3 4 5 6 7 8 9 10, trata-se de uma segunda impressão; e se ela é 3 4 5 6 7 8 9 10, trata-se de uma terceira impressão; etc.

O motivo para que se retire um número por vez ao invés de, por exemplo, apenas substituí-lo tem a ver com o modo que os editores têm historicamente imprimido livros. Por exemplo, em impressão offset, você pode apagar algo da chapa de impressão de forma relativamente fácil, mas adicionar um número demandaria a criação de uma chapa completamente nova.

De qualquer forma, às vezes linhas numéricas são acompanhadas das palavras primeira edição, mas isso não significa necessariamente que esta seja a primeira impressão. O exemplo a seguir indicaria a terceira impressão de uma primeira edição:

First edition
3 4 5 6 7 8 9 10

Podem existir diversas impressões de uma edição, e esta última pode ser definida como um “arranjo de tipo sem mudança significativa.” [N.T.: segundo a ABNT NBR 6029, “Edição: Todos os exemplares produzidos a partir de um original ou matriz. Pertencem à mesma edição de uma publicação todas as suas impressões, reimpressões, tiragens etc., produzidas diretamente ou por outros métodos, sem modificações, independentemente do período decorrido desde a primeira publicação.”] Então, se o autor não muda o texto do livro (como autores de livros-texto frequentemente fazem), e as páginas se mantêm as mesmas, então caso o editor simplesmente deseje fazer outra série de cópias, não se trata de uma reedição, e, sim, de uma reimpressão.

Se, contudo, as páginas foram modificadas significativamente, ou o livro foi reformatado, como brochura, por exemplo, então a impressão neste novo formato será uma nova edição. Note-se, contudo, que ela pode não estar designada como uma segunda (ou terceira, ou quarta) edição, e, mesmo assim, ser chamada de “primeira edição em brochura”, “primeira edição americana”, ou “primeira edição da coleção Penguin Classics”. Colecionadores sérios consideram estas versões inferiores à tão desejada primeira impressão de uma primeira edição [N.T.: edição príncipe ou princeps].

Dependendo do editor, a linha numérica pode também indicar o ano da impressão, como em 2 3 4 5 6 93 92 91 90. Isso revela que se trata de uma segunda impressão feita no ano 1990. Assim como a sequência corrida de impressões, se o livro for reimpresso em um ano posterior, o 90 seria removido, deixando a sequência de anos como 93 92 91.

Ainda, se o editor faz a impressão através de terceiros, a gráfica também pode estar indicada na linha numérica. Neste exemplo, a linha numérica mostra que a Melissa’s Printing Company foi contrata para fazer a terceira impressão em 2016: 3 4 5 6 7 8 9 10 MPC 19 18 17 16.

Por fim, alguns editores preferem outras linhas numéricas, como a Anness Publishing, que usa uma  linha que alterna dígitos como 1 3 5 7 9 10 8 6 4 2, na qual a segunda impressão seria 3 5 7 9 10 8 6 4 2, e a quinta, 5 7 9 10 8 6. Este padrão particular é usado para manter a linha numérica centralizada após diversas reimpressões.

Para demonstrar a falta de padronização entre os editores, a editora gigante Random House indicava suas primeiras impressões de primeiras edições com as palavras primeira edição, mas com uma linha numérica iniciada por 2 (e não por 1), como 2 3 4 5 6 7 8 9. Contudo, ela usa este mesmo número, mas sem as palavras “primeira edição”, para indicar uma segunda impressão.