Serviços, tamanho e coisas

A biblioteca que temos* e a biblioteca que gostaríamos de ter. Talvez seja esta a grande questão da nossa existência — e não falo aqui apenas das nossas expectativas com nosso local de trabalho, mas também do embate genérico entre o que temos de fato e as coisas que almejamos alcançar. Mas isso não importa agora.

Lendo, achei um texto de um blog que parece se aproximar muito da minha situação atual. O Academic Library, blog de um bibliotecário da Princeton. Numa postagem recente, ele comenta um outro texto, de um blog de outra bibliotecária de IES. Vocês entenderam: nada se cria, tudo se copia e vou comentar o comentário dele, mais especificamente falando sobre a minha (minúscula) experiência em biblioteca universitária.

No texto, é discutida a diferença entre “o que os professores querem” e “o futuro e as expectativas dos bibliotecários”: o que os bibliotecários geralmente querem oferecer não está de acordo com as reais capacidades físicas/econômicas/lógicas da institiuição a qual eles estão subordinados. Talvez eu seja um tanto quanto derrotista, ou um tanto quanto conformado. Mas tenho percebido que tudo aquilo que eu queria fazer quando cheguei no meu novo emprego vai demorar um pouquinho mais de tempo pra conseguir alcançar. Um treinamento básico e formalizado para os funcionários, por exemplo.

Mas vamos voltar às expectativas discordantes dos professores e dos bibliotecários. O texto, basicamente, serve para lembrar uma coisa: para que serve a biblioteca em que tu trabalha? Vamos, seja realista. Apoiar a pesquisa e apoiar o currículo de cursos são metas completamente diferentes e, se não, concorrentes. Depois disso, quais ações tu quer promover e quais ações os usuários precisam? Professores geralmente sabem que sabem tudo e, bem, certamente já frequentaram bibliotecas maiores e mais completas — não vai ser você que vai ensiná-los a fazer buscas no Google.

Os serviços, o tamanho da coleção, as coisas que a biblioteca oferece estão de acordo com o que os usuários precisam ou o que os bibliotecários querem oferecer? As diretorias da instituição sabem quem faz parte da comunidade acadêmica e têm alguma preferência por quem privilegiar (professores pesquisadores, professores, estudantes de pós-graduação, estudantes de graduação, público externo)? Se existe mais de uma prioridade, nenhuma delas é prioridade. Qual a prioridade (a da biblioteca, a das diretorias, a da instituição)?

De qualquer forma a diretoria manda, a biblioteca obedece. O bibliotecário tem gerência nesse, e apenas nesse, setor. O máximo que pode fazer é lobby — e dá-lhe lobby (por favor, mandem e-mails reclamando da biblioteca para os bibliotecários, por favor). Uma das salas de estudo virou depósito? Ué: a Instituição não tem depósito? Qual é a prioridade de uso da sala de estudo: armazenar coleção a processar/prateleiras desmontadas ou… hm… gente que quer estudar? As salas de estudo não tem vedação acústica? Ué: o que se espera na hora de se estudar: silêncio/um ambiente aconchegante ou apenas ficar dentro de um aquário de vidro que não faz a menor diferença prática (fora atritos por causa de reserva)? As diretorias sabem que as decisões delas têm consequências (e consequências bastante reais)?

O bibliotecário é apenas, e apenas, um elo entre a comunidade e a diretoria. Ele até pode fazer decisões específicas sobre aquele setor, e obviamente deve fazer lobby de um lado para o outro (o que os usuários precisam versus o que os gestores têm interesse e condições de oferecer). Porém, e em último caso, o bibliotecário é um amortecedor entre as duas necessidades. Como convencer os gestores de que os usuários precisam receber algo melhor? Como explicar aos usuários que, bem, a sala de estudo vai continuar sendo ocupada por prateleiras desmontadas porque simplesmente não podemos levar as peças pra guardar em casa?

Eu até posso procurar otimizar meu tempo (e, acreditem, eu tento), mas ainda assim revisar as bibliografias para comprar as obras que estão faltando nas estantes ainda é prioridade perto de desenvolver um projeto de educação de usuários. (E se nós investimos apenas em obras de bibliografia de cursos, acreditem, novamente, isso não me satisfaz. Mas é o que tem pra hoje. Agora chega de chorar mumu.).

* Sempre desprezei (e continuarei a desprezar) quem fala como se fosse dono do seu local de trabalho, especialmente em atividades que servem os outros: “Porque na minha biblioteca isso; porque na minha biblioteca aquilo.” A biblioteca não é tua: é dos teus usuários.

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