Como não escrever sobre bibliotecas: diretrizes para repórteres e jornalistas (e para quem não conhece muito o assunto)

Estou um pouco afastado do blog, mas traduzo abaixo um texto publicado por Jessamyn West, do librarian.net. Ele foi adaptado por mim e publicado com autorização da autora. Fiz alguns ajustes para adaptar a realidade dos EUA à do Brasil (especialmente quanto à formação acadêmica dos bibliotecários, além de tentar achar links interessantes como a autora fez no original) da melhor forma que pude. Perdoem quaisquer erros e, por favor, ajudem-me a corrigi-los!

Acredito que, apesar de ser focado em jornalistas e repórteres, este texto explica muita coisa que a população em geral desconhece sobre o trabalho em bibliotecas. Talvez seja interessante divulgá-lo entre nossos familiares e amigos também.

Agradeço à Lilly por me ajudar a revisar o texto e fazer sugestões antes dele se tornar público.

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Já sabemos. Os tempos estão difíceis. A esfera pública está encolhendo nos EUA e no resto do mundo. Bibliotecas estão abertas por aí e fazendo coisas. O seu ciclo de financiamento é longo e demorado e depende dos caprichos de diversas pessoas, por vezes misteriosas. O sistema de bibliotecas públicas pertence a todos. Há muito do que se falar; diversas coisas acontecem nele. Muitas pessoas têm opiniões fortes sobre como os lugares públicos são usados e sobre como dinheiro público é gasto, e sobre bibliotecas em específico. Vocês têm um ciclo de notícias de 24 horas, com páginas ou telas para preencher. Isso é ótimo. Nós estamos geralmente felizes pela atenção.

Ao mesmo tempo há algumas figuras de linguagem que não nos ajudam em nada. Vocês se parecem com pessoas que não fizeram suas pesquisas ou com aquelas que vão pelos clichê mais fácil e nós nos parecemos com pessoas que não aguentam piadas inofensivas (que já escutamos milhares de vezes). Vamos encontrar um lugar onde todos nós nos sintamos bem sobre todo este esforço. Aqui seguem algumas sugestões. Esperamos que esta lista, baseada na Como não escrever críticas sobre quadrinhos, seja útil. Ela é chamada

Como não escrever sobre bibliotecas

1 Sua piada sobre bibliotecas é velha, mesmo que seja nova pra você

É praticamente impossível você fazer um jogo de palavras sobre bibliotecas que já não tenha sido feito um milhão de vezes antes, mesmo algo que soe contemporâneo. Você provavelmente está incomodado por ter recebido o trabalho de ter que escrever sobre o estado crítico das bibliotecas, mas não desconte na gente. Também notifique o responsável pela criação da manchete, por favor. Nós sabemos que você está fazendo o seu melhor, mas nós não precisamos ver “virar a página” ou “iniciar um novo capítulo” quando um novo prédio é construído ou um bibliotecário ganha um novo emprego, se aposenta ou morre ou qualquer tipo de shhhh/dewey/gato de novo. Aquela história do “Livro atrasado devolvido depois de anos”? Já conhecemos ela, obrigado.

2 Pare com o policiamento de guarda-roupas

Tente você trabalhar noites e finais de semana num prédio histórico com um sistema de ar tão antigo quando o prédio. Vestir lã e camadas é tão prático e esperto quanto manter seu cabelo longe do seu rosto quanto você tiver que engatinhar sob uma mesa para lutar contra um computador. Sessenta e quatro porcento dos americanos usam óculos, este número aumenta para 90% depois de 49 anos. Nós não somos absurdamente míopes por ler tanto, nós somos normais. Dizer “AH MEU DEUS, elas também podem ser sexy!” não é uma forma positiva de responder a essa informação; enquanto profissão, sempre fomos bastante contra censura e não temos tabus com sexo.

3 Não somos todas mulheres, bem pelo contrário

Em 2008 a divisão por gênero entre os recém formados nos Estados Unidos era de 80% mulheres e 20% homens. Ano passado [2011] era mais pra 78%/22% e a divisão mulher/homem está diminuindo. Nós somos de diversas etnias e falamos diversas línguas. Saímos e casamos com pessoas de diversos gêneros. Uma boa parcela de nós acabou de sair da faculdade e compartilha as características de outras pessoas neste grupo: tatuagem, piercings, inclinação por bebida. Muitos de nós não acabaram de sair da graduação e gostam das mesmas coisas. Nada de diferente. Diversidade de todos os tipos é importante em qualquer serviço públicos quando se trabalha para todo o público: por favor, tente respeitar e representar a diversidade da nossa população como ela existe de fato e não como ela existia em filmes de 30 ou 50 anos atrás.

4 Muitas pessoas trabalham em uma biblioteca

Isso geralmente surge quando há um crime ou algum outro escândalo em uma biblioteca e alguém que foi entrevistado é invariavelmente chamado de “bibliotecário” e depois se descobre de que se trata de um auxiliar, um voluntário ou até mesmo de um usuário prestativo e tagarela. Bibliotecários (geralmente) trabalham em bibliotecas, mas nem todos que trabalham em bibliotecas sãos bibliotecários. Há diferentes linhas de pensamento sobre a importância das seguintes distinções e embora não esperemos que você entenda as nuances sutis da diferença entre um bibliotecário de referência e um catalogador, ou entre um atendente e um guardador de livros, é apenas importante saber que há diferentes trabalhos dentro de uma bibliotecas e nem todos eles são de “bibliotecário”. E, caso você não tenha certeza do cargo da pessoa que foi entrevistada, pergunte a ela. Todos os bibliotecários (para serem chamados de bibliotecários) precisam ter uma graduação formal em uma instituição reconhecida. Isto é chamado de “faculdade de Biblioteconomia” e há inclusive aqueles que têm pós-graduações (seja especializações, ou mestrados, doutorados e pós-doutorados).

5 Há coisas incríveis escondidas em coleções especiais

… e você não ajuda elas a serem encontradas se continuar a representar as bibliotecas como empoeiradas, mofadas, desarrumadas ou povoadas por hobbits e magos, criaturas estranhas e desconhecidas fora de todos os padrões de humanidade. Apresente-se e fique um tempo na biblioteca e você provavelmente perceberá algumas coisas maravilhosas e aprenderá coisas legais sobre sua cidade, seus vizinhos ou sobre sua instituição de ensino.

6 Ninguém com qualquer credibilidade acredita que “Está tudo na internet” e há razões para que não esteja mesmo

Esta ideia é um exemplo de falácia do espantalho, então pare de usá-la. Há uma boa discussão a ser feita sobre o aumento da digitalização ser um benefício para uma sociedade que cada vez mais procura satisfazer suas necessidades por informação online. Contudo, estamos bastante longe disso hoje — a exclusão digital é real e enorme. O sistema de bases de dados comerciais e que são inacessíveis sem pagamento ou sem uma senha nos incomoda tanto, se não mais, quanto incomoda você. Nós estamos tentando ajudar as pessoas a acessarem a informação que elas querem e de que elas precisam. Sentimos muito que a tendência ao digital afete alguns negócios, mas nós sempre fomos os melhores clientes das editoras e isto só mudará se eles nos forçarem a isso. Nós também preferiríamos que a gestão de direitos digitais (digital rights management, ou DRM) fosse menos onerosa. Nós ficaríamos felizes de conversar com você com profundidade sobre por que é mais fácil comprar algo da Amazon.com para uso pessoal do que é para alugar na sua biblioteca para ler no seu Kindle. A culpa é do copyright e do capitalismo, não da biblioteca.

7 A coisa do dinheiro é complicada; reserve um tempo para entendê-la

O processo de financiamento para bibliotecas é longo, demorado e bastante burocrático. Uma notícia sobre a “crise” de financiamento quando se trata possivelmente de um ajuste de finanças nos faz uns grande desserviço por causa da abordagem “o céu está caindo”. Dar às pessoas informação real sobre o que está acontecendo com e para o orçamento, e por quê, seria um grande serviço. Mais informação menos alarmista, por favor. E, como sempre, se você precisa de números nós estaremos felizes em oferecê-los. Eles são públicos. Bibliotecas públicas têm reuniões regulares e abertas de seus conselheiros e vale a pena participar delas se este assunto é do seu interesse.

8 Nem todas as bibliotecas são bibliotecas públicas

Eu trabalho em biblioteca pública, então acabo caindo nesta armadilha também. O sistema de bibliotecas públicas do Brasil é algo que vem se organizando aos poucos, centrado no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (no Rio de Janeiro) e com braços que se estendem para cada estado e, então, para cada município, mas não é o único sistema de bibliotecas ou a única forma das bibliotecas se organizarem em grupos. Bibliotecas escolares e acadêmicas (instituições de ensino superior) e bibliotecas jurídicas e médicas e outras bibliotecas especiais têm seus próprios sistemas e procedimento e estatutos administrativos e missões e associações profissionais. Tenha certeza de que você não está relatando sobre um tipo de biblioteca e atribuindo valores e tradições de outro tipo completamente diferente.

9 Todo o público é bem-vindo em uma biblioteca pública

… mesmo aquele tipo de gente do qual você não gosta ou acha desagradável. E possivelmente também pessoas que acham você desagradável. Com algumas exceções, pessoas que passam dias ou semanas inteiras na biblioteca ou que estão usando os computadores para ver coisas que outras pessoas consideram “privadas” fazem isso porque elas não tem opções melhores ou mais genuínas. Isto é um problema social maior e estamos tentando ajudar, fazendo o melhor em uma situação difícil dentro da estrutura de nosso regulamento, políticas institucionais e procedimentos. A situação é complicada e merece um tratamento melhor do que a manchete caça-níqueis “Pornografia na biblioteca!”.

10 Bibliotecas estão repletas de barulho alegre

Nem sempre, mas seguido o suficiente para dar tchau aos “tsc tsc” e aos “shhh” e aos cartazes de “SILÊNCIO, POR FAVOR”. Mesmo que tentemos proporcionar espaços que acomodem tanto leitura silenciosa quanto indóceis horas do conto e trabalhos em grupo, a forma de condução destes fenômenos pelas bibliotecas é tão variada quanto são nossos prédios. Bibliotecas estão mais populares do que nunca segundo a maioria dos medidores de popularidade de bibliotecas e ainda são instituições culturais tremendamente amadas que estão disponíveis para cada indivíduo. Os relatos sobre nosso fim têm sido bastante exagerados, especialmente na internet.

De qualquer forma, é verdade que a maior parte de nós gosta de gatos e em geral não odiamos a Wikipédia.

* ATUALIZAÇÃO 03/10/2012 (Obrigado, Karin, por me lembrar desse detalhe: Além da formação superior, para se atuar como bibliotecário no Brasil é necessário ser registrado no Conselho de Biblioteconomia (o CFB – Conselho Federal de Biblioteconomia). A função deles é fazer cumprir o Código de Ética dos bibliotecários e autuar organizações e profissionais que estejam prejudicando a sociedade.

Seguem algumas fontes interessantes para se conseguir informações fatuais sobre bibliotecas no Brasil.

- Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP)
Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB)
- Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB)
Conselho Brasileiro de Bibliotecas Universitárias (CBBU)

Primeiro Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais
- Link sobre a inauguração do site Bibliotecários tatuados (que já saiu do ar)
- O Estereótipo do bibliotecário no cinema (TCC de graduação; nós já sabemos o que os outros acham da gente)

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