A Biblioteca Departamental do Val d’Oise

A Biblioteca Departamental do Val d’Oise (BDVO) é um tipo bastante específico de biblioteca pública francesa: ela oferece seus serviços não aos cidadãos, mas às próprias bibliotecas públicas e a seus bibliotecários. Foi nela que estagiei durante as últimas semanas e aqui você lerá um breve (brevíssimo!) relato.

Como cheguei lá

Em 2015 vi na biblioblogosfera o anúncio de que a Bibliothèque Publique d’Information (BPI) oferecia um estágio de até seis semanas na França para bibliotecários francófonos estrangeiros. Para quem não conhece, a BPI é uma das bibliotecas nacionais francesas: sim, além da Biblioteca Nacional (BnF), cuja missão, entre outras, é manter o depósito legal do país, existe a BPI, biblioteca “de leitura pública”, como eles chamam. Isto é: a BPI é a biblioteca pública das bibliotecas públicas, cuja missão é instigar o avanço na área. Para concorrer ao estágio, além de estar trabalhando na área e se comunicar em francês, é necessário apresentar um projeto de trabalho para o período.

Meu projeto versava sobre a formação básica oferecida a agentes de bibliotecas públicas pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Rio Grande do Sul (BPE-RS), onde eu já havia estagiado e atualmente faço trabalho voluntário. Meu projeto foi selecionado e na aventura eu entrei.

O que é uma Biblioteca Departamental?

No dossiê de candidatura, é necessário indicar alguma região ou biblioteca potencial onde você gostaria de executar o projeto. Como não conhecia muito a realidade local, sugeri a cidade de Versalhes, que eu já conhecia. Contudo, ao aceitar meu projeto, a equipe da BPI me indicou um outro lugar: a biblioteca de um outro departamento.

Outra contextualização se faz necessária para quem não conhece a administração francesa — ou o mil folhas administrativo, como os próprios franceses chamam. Há um grande Estado (a França), que é dividido em Regiões. Estas regiões são subdivididas em Departamentos e os departamentos em cidades/comunas, aglomerações de comunas, comunidades de comunas, e provavelmente outras possibilidades. Esta também é uma explicação superficial: se você quiser tentar entender, pode começar pela entrada da Wikipedia sobre o assunto (eu não entendo muito bem ainda, admito). Também é bom ressaltar que existe um processo político e administrativo a fim de reformar essa bagunça toda, o que afeta diretamente o trabalho nas bibliotecas públicas.

Assim, as bibliotecas públicas como as conhecemos no Brasil são de responsabilidade das comunas/cidades/aglomerações/comunidades de comunas e oferecem seus serviços às pessoas. É interesse que na França não existe obrigatoriedade jurídica da criação de bibliotecas em cada cidade, e há muitas bibliotecas (especialmente nas áreas mais rurais) que só existem por causa do trabalho de voluntários. Já os Departamentos, desde 1945, oferecem Bibliotecas Departamentais — suas funções e missões (e até existência) variam de lugar para lugar e, ao que tudo indica, o trabalho da BDVO é bastante atípico e também especial.

A BDVO

Como dito antes, os usuários da BDVO não são os cidadãos, e sim as bibliotecas — ao menos hoje. Antigamente, os serviços desta biblioteca estavam também ligados ao atendimento aos cidadãos, especialmente os serviços de empréstimos de livros a escolas e através dos “bibliobus”, a fim de alcançar as populações mais distantes. Mas já há algum tempo, e desde 2012, após uma deliberação do Conselho Departamental, ficou decidido que entre as missões da BDVO está a qualificação das bibliotecas públicas do departamento — através de financiamento de projetos, formações em tópicos específicos e coordenação de uma rede de empréstimo entre bibliotecas.

Com uma equipe de cerca de 20 pessoas, o trabalho na BDVO é dividido em três grandes áreas principais: trabalhos logísticos (transporte, informática, operacional), trabalhos administrativos (burocráticos, financeiros, gestão de pessoas) e trabalhos territoriais (afinal, o mil folhas tem esse nome por algum motivo: o Departamento é subdividido em territórios, onde ficam as comunas/cidades/aglomerações/comunidades). Também não é raro que os funcionários tenham mais de uma missão em mais de uma destas três áreas. Por exemplo: alguém pode ser encarregado de acompanhar as bibliotecas de determinado território e, além disso, responder pelas atividades relacionadas à coleção audiovisual. Na verdade, esta é mais a regra do que a exceção.

As missões da BDVO

A fim de fazer um panorama geral dos trabalhos da BDVO, cito apenas alguns. O trabalho com os territórios é o mais explícito: cerca de 10 pessoas dividem sua atenção sobre os 5 territórios do Val d’Oise, e oferecem um acompanhamento personalizado para estas pessoas. Aconselhamento técnico, auxílio sobre escrita e desenvolvimento de projetos de desenvolvimento e empréstimo do acervo departamental para complementar os acervos locais fazem parte desta missão. Inclusive, o acervo departamental é outra missão interessante.

Este acervo, na verdade, são vários: além dos livros impressos e coleção audiovisual, a BDVO mantém um acervo de mobiliários infanto-juvenis, tablets e e-book readers, jogos de videogame (e seus consoles) e exposições educativas que servem para ajudar a renovar periodicamente as coleções das pequenas bibliotecas. Ou seja: um dos objetivos destas coleções é propiciar às pequenas bibliotecas uma oportunidade de testar novos conteúdos junto à sua comunidade para medir o interesse dela e, com isso, ajudar a justificar uma possível aquisição. Por exemplo: os tablets (iPads e Android) têm sido usados para se entender a demanda por conteúdos digitais e estimular a autonomia das pequenas bibliotecas — elas, contudo, devem se esforçar para conseguir verbas para a aquisição dos aparelhos se houver grande interesse por parte das suas comunidades.

Outra missão da BDVO é a rede de empréstimo entre bibliotecas e o catálogo comum, o RéVOdoc — reconhecido pela Diretoria de Ação Cultural (a quem a BDVO é subordinada administrativamente) do departamento como “essencial”. Com cerca de 76 bibliotecas participando ativamente, mais de 90% da população do departamento tem acesso às coleções compartilhadas, o que justifica o slogan do serviço: “Com o RéVOdoc, sua biblioteca é tão grande quanto o Val d’Oise.” Também é necessário ressaltar que este não é um serviço oferecido pela BDVO: a biblioteca departamental age mais como um coordenador do serviço, que exige a participação coletiva de todas as bibliotecas inscritas — quem faz as definições, escolhas e decisões é o conjunto de bibliotecários da rede.

Por fim, uma outra missão importante (e ligada ao meu projeto!) é a de formação das pessoas que trabalham nas bibliotecas municipais e de aglomerações municipais. Esta missão renderia uma postagem específica, portanto serei breve. A intenção da BDVO, neste caso, é entender as necessidades locais dos seus bibliotecários (e por “bibliotecários” entenda “quem trabalha em biblioteca”, como você pode ver uma explicação no rodapé desta postagem) e oferecer um programa de aprimoramento técnico e pessoal, seja através de programas que se desenvolvem durante todo o ano em pequenos encontros e são oferecidos a todos os territórios igualmente ou através de “formações à la carte”, na qual cada território pode eleger um assunto específico e receber uma atenção pormenorizada sobre sua necessidade.

Fica claro, portanto, que o objetivo da BDVO é promover a autonomia das (por vezes pequenas) bibliotecas municipais e cujo fio condutor é a máxima “Não fazer por”. Isto é: a equipe da biblioteca departamental deve oferecer recursos (técnicos, informacionais, oportunidades) para que as pequenas bibliotecas façam por si só o que deve ser feito — e não simplesmente fazer as coisas por elas. E provavelmente é este o motivo que torna a BDVO tão especial (e tão bem sucedida) entre as outras bibliotecas departamentais: os bibliotecários devem ter os estímulos certos para desenvolverem serviços de qualidade, e não apenas receberem instruções do que fazer; até mesmo porque são eles que conhecem seus públicos (reais e potenciais) e, por isso, precisam ter autonomia para se organizarem como é necessário.

Um agradecimento

Acredito que seja necessário registrar um agradecimento à equipe que me acolheu tão bem neste período — Sylvie Colley, da BPI, por ter me auxiliado com as questões burocráticas; Émilie Nguyen Phu Qui, pela tutoria direta e pelos passeios; Claire Gaudois, pelas conversas e conhecimento profundo sobre a BDVO. Também gostaria de agradecer à Cécile Avallone, diretora, por ter aceitado me receber e pelo interesse pela cultura brasileira e língua portuguesa. Não posso também deixar de agradecer a todas as pessoas da equipe e que conheci nesta viagem, mesmo que não citadas por nome. Foi um momento bastante especial e proveitoso para minha carreira profissional e pessoal.