A Biblioteca escolar como Central Informacional (e o papel das associações de bibliotecas escolares)

Mesmo não sendo as bibliotecas escolares o foco do meu interesse principal em Biblioteconomia, fui assistir a uma palestra Günther Schlamp, consultor para as Secretarias de Educação nos estados alemães de Hesse e Berlim-Brandenburgo, sobre bibliotecas escolares e suas associações. O evento ocorreu em 21 de outubro de 2011 e foi organizado pela Biblioteca do Goethe-Institut Porto Alegre. Este post, portanto, é mais um da série de relatos sobre palestras relacionadas à Biblioteconomia.

A fala do senhor Schlamp baseou-se, principalmente, na ideia de que a biblioteca deve fazer parte da escola, sendo mais um local onde os estudantes possam ir para continuarem aprendendo — a função didática da biblioteca. Do mesmo modo, Schlamp comenta da necessidade de que haja professores-bibliotecários, pessoas com capacidade didática e que possam organizar, na biblioteca, atividades educacionais que complementem as discussões de sala de aula. O empréstimo, deste modo, não deve ser visto como serviço primordial do setor: sua qualidade deve ser medida através das atividades relacionadas ao estímulo à reflexão, à concentração, à leitura e à troca de conhecimento.

Da mesma forma, a biblioteca escolar não deve servir apenas aos alunos, mas também aos professores: os serviços e produtos da biblioteca devem ir à Sala dos Professores, oferecer sugestões e assessoria, além de estimular a formação continuada dos professores. Ainda, Schlamp destacou a necessidade da visibilidade da biblioteca em tempos de digitalidade: a biblioteca precisa aparecer no site da escola, é interessante discutir a criação de apps/aplicativos/softwares/programas e de sites da biblioteca (inclusive oferecendo catálogos on-line) tendo em mente o acesso pelo celular e tablets.

Schlamp, então, fala da biblioteca escolar como “motor de mudança” e cita seis tópicos que devem ser levados em consideração ao se repensar os serviços deste tipo de biblioteca. O primeiro trata de “transformar a aula”, isto é, mudar o paradigma de que o professor existe para transmitir conhecimento e desenvolver a ideia de que o professor é um interventor, ou moderador, do conhecimento — um “navegador de Conhecimento”. Como consequência disso, o segundo tópico trata da competência informacional, isto é, reconsiderar qual é o foco dado ao aprendizado e aos conteúdos apresentados — a escola trata-se mais de aprender a memorizar informações ou aprender a aprender? Já o terceiro tópico é sobre prática cultural, termo utilizado por Schlamp para tratar do incentivo à leitura, à criação e à competência em mídias. Neste caso, o palestrante comenta que estas três ações devem ser pensadas além do papel, isto é: a biblioteca deve ajudar os educadores a ensinarem os alunos a ler, criar e desenvolver criticidade sobre as diversas manifestações culturais — escrito em papel, edição de clipes e vídeos, produção em áudio. Em seguida, o quarto tópico apresentado foi o turno integral e como a biblioteca pode se inserir neste contexto. Schlamp sugere que sejam oferecidas “coisas divertidas” e possibilidades de aprendizado, transformando o tempo passado na biblioteca em uma mesca de tempo livre com aula/aprendizado. Também foi sugerido o estímulo da biblioteca como espaço para realização de tarefas de casa e o fomento a iniciativas como Clubes de Leitura. O quinto item tratou de necessidades especiais: neste caso, Schlamp não tratou especificamente de pessoas com necessidades especiais relacionadas a deficiências físicas ou mentais, mas sim incluiu neste grupo filhos de imigrantes e pessoas que têm uma língua materna diferente da utilizada na biblioteca e na escola. Por fim, o último tópico discutido foi sobre gestão de conhecimento e a ideia da biblioteca escolar como a “Central Informacional” da escola, auxiliando o ensino (indo à Sala dos Professores), o aprendizado (oferecendo recursos aos estudantes) e servindo de repositório dos trabalhos escolares (o que já é comum em universidades).

Como embasamento, Schlamp cita os Estudos do Colorado (EUA), conjunto de pesquisas sobre o impacto da biblioteca escolar no aprendizado (link com recursos sobre os Estudos: <http://www.lrs.org/impact.php>). Em resumo, foram realizadas mais de 80 pesquisas em diferentes escolas, e descobriu-se que boas bibliotecas estão relacionadas ao bom rendimento escolar. Os indicadores das pesquisas estão relacionadas aos seguintes fatores: professores-bibliotecários ativos e capacitados; horário de funcionamento ampliado; qualidade do acervo e integração de novas mídias; boa parceria entre os professores-bibliotecários e os professores de sala de aula e o treinamento de técnicas de trabalho na biblioteca/literacia informacional.

O trabalho, portanto, não é pouco. E, da mesma forma que exige conhecimentos técnicos de Biblioteconomia e gestão de centros de informação, também exige conhecimentos didáticos. Assim, o palestrante sugere a presença do que chama Professor-bibliotecário — alguém com formação híbrida, capacitado para o incentivo à leitura, à pesquisa de informações, à proporcional competência com mídias e que fomente o uso da biblioteca para aulas (e não apenas como suporte a elas).

Por fim, a palestra também tratou sobre as associações de bibliotecas escolares na Alemanha. Apesar de não existir até hoje uma lei nacional alemã que exija bibliotecas em escolas, as bibliotecas existentes se organizam e oferecem produtos e serviços umas às outras. Por exemplo, o trabalho em grupo acaba por culminar em um OPAC integrado, facilitando o tratamento técnico do acervo. Estas associações também promovem a capacitação dos profissionais ligados à biblioteca escolar através de publicações específicas e aconselhamentos.  Ainda, Schlamp apresentou alguns dos projetos propostos pelas associações.

Entre os projetos apresentados (como as Caixas de Livros e Culturamóvel, relacionados a acervos itinerantes) estão propostas de Concursos de Biblioteca Escolar do Ano, um reconhecimento da classe para as bibliotecas e seus responsáveis que mais se destacaram no ano; a proposta de Bibliotecário de aluguel, um profissional itinerante que oferece consultoria por escola; e, o mais importante, a proposta de Cursos de formação para professores-bibliotecários.

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É interessante notar, portanto, que a biblioteca escolar de Günther Schlamp é uma biblioteca total: ela existe para auxiliar tanto alunos quanto professores (e, acredito, também os gestores da instituição como um todo), para servir de lazer educativo e instrução específica (a biblioteca como espaço de encontro cultural, como em Clubes de Leitura, e como sala de aula e pesquisa), e para o desenvolvimento de competências informacionais (a biblioteca ensina a aprender e a criticar as informações recebidas). Através desta mentalidade, a biblioteca, de fato, se torna o Centro Informacional da escola — órgão de relevância máxima, pois serve, teoricamente, de embasamento para as atividades de todos os envolvidos no processo de aprendizado.

Assim, também surge a idéia de professor-bibliotecário — não um professor deslocado de suas atividades e que atua na biblioteca, mas sim alguém com formação didática e bibliotecária, habilitado a discutir projetos educativos com outros professores, tendo em vista as técnicas de processamento e gestão em unidades informacionais.