A Noção de hipertexto

Primeira parte do artigo “Texto e Hipertexto“.

A noção de hipertexto está intimamente ligada, pelo menos para a maioria das pessoas, à digitalidade. Ao que tudo indica, para eles, o hipertexto é digital por natureza, sendo impensável fora do fluxo de bits que compõe o ciberespaço. O ciberespaço mesmo talvez possa ser considerado um grande hipertexto, em que cada nó constituinte, cada link, seja um hipertexto mais especializado, ligado a outros, infinitamente. O hipertexto, então obrigatoriamente multimídia, se apresenta sem rodeios através da internet, uma rede social maior que o mundo, em que cada pessoa gera e consome conteúdo multimídia: numa mesma página são disponibilizados o texto escrito, uma representação figurativa – quem sabe em forma de gráfico – dos conceitos apresentados na parte escrita, e, somando-se a isso, uma animação, musicada, de preferência, que finaliza as explicações e que, se for bem bolada o suficiente, tornar-se-á um viral, a ser retransmitido isoladamente. Mas não só isso: cada um destes elementos é destacável do todo e cada um deles é um link, um nó que leva a alguma outra parte da rede.

O site Internet Memes é um exemplo de documento hipertextual digital que reúne diferentes midias
O site Internet Memes é um exemplo de documento hipertextual digital que reúne conteúdo multimídia sobre os “acontecimentos” que viram febre entre os internautass

Mas o hipertexto não é apenas multimídia. E também não é apenas digital. Hipertextuais são todas as relações reticulares que permeiam o mundo da transmissão de conceitos. Um livro, por exemplo, pode ser explorado através de seu sumário, e cada capítulo pode ser lido em ordem de preferência, se o leitor assim o quiser e se houver necessidade – atividade corriqueira inclusive na Acadêmica, em que professores indicam trechos de diferentes livros como bibliografia essencial na esperança de que seus pupilos os ouçam. E dentro deste mesmo livro, a rede se torna evidente através tanto de referências intratextuais (sumários, índices, notas de rodapé) quanto de referências extratextuais (as citações, bibliografias, recomendações explícitas na macha).

pula-se de artigo para artigo e ilustrações podem valer por parágrafos inteiros
Dificilmente alguém lê um jornal na seqüência em que os textos são apresentados: pula-se de artigo para artigo e ilustrações podem valer por parágrafos inteiros. Foto: “reading the paper”, de Bonnie Natko/bondidwhat no Flickr.com

A não-linearidade não é exclusiva dos meios digitais. De fato ela é facilitada, sim, quando escrita através do binômio zero e um – como ouvir uma sinfonia se ela não for contínua? – mas não exclusivamente. Redes sociaisoff-line (conhecidas também como “vida real” pelos puristas), por exemplo, também podem ser consideradas hipertextuais, pois as conexões entre os conceitos se dão quando duas pessoas trocam informações e ligam fatos e idéias, gerando caminhos intelectuais durante a conversação, que podem ser seguidos ou não. O cérebro, portanto, é hipertextual por natureza, uma vez que funciona através de associações.