A qualquer-coisa-teca: biblioteca, midiateca, ludoteca ou outra coisa?

Na França, têm surgido diversos lugares públicos onde os cidadãos podem consultar livros, revistas, acessar a internet de computadores ou através de redes wi-fi gratuitas, além de se servirem de jogos, CDs, DVDs e espaços multi-uso. Como são chamados estes lugares? “Midiatecas”, “ludotecas”. Por que não “bibliotecas”?

A questão, parcialmente resolvível pela Terminologia, contudo, deveria ser a seguinte: a partir de qual momento as “bibliotecas” deixaram de ser úteis e precisaram ser substituídas por outra-coisa-tecas? E a responsabilidade por esta mudança é de quem — dos gestores destes espaços ou dos seus usuários?

Sim: aparentemente estou discutindo aqui o sexo dos anjos — mas não interessa exatamente o nome do serviço, contanto que ele seja oferecido de forma regular e com qualidade para uma comunidade. De qualquer forma, e por algum motivo, a função social destes lugares (bibliotecas, midiatecas, ludotecas, qualquer-coisa-tecas) não tem acompanhado as necessidades do público para o qual se destinam.

A mudança terminológica vem acompanha de uma alteração nos serviços. Alguns responsáveis pelas bibliotecas* da França acreditam que as “bibliotecas clássicas” (e em “clássicas” há um subtexto de “livro-cêntrias”) estão com os dias fadados, pois os usuários precisam de um terceiro lugar — isto é, aquele espaço semi-público, semi-privado, que é ocupado, entre outras coisas, para socialização. Nada mais claro que a necessidade de transferir o foco destes lugares do livro para… para o que mesmo? Para novas mídias? Para jogos?

Jogos, de tabuleiro, cartas ou eletrônicos; brinquedos, fantasias e material de criação; oficinas e atividades pedagógicas ou de puro entretenimento; espaços dedicados para o uso dos “bem pequenos” (de zero a quatro anos), mobiliário móvel (com rodas, que facilitam a reorganização física dos espaços) e máquinas que oferecem comidas e bebidas (além de livros e revistas em papel)… tudo isso dentro de… como é o nome mesmo? Bibliotecas?

Não! “Biblioteca” é um nome antiquado, clássico. Este novo sistema precisa de um novo batismo — midiatecas, ludotecas, ludo-mediatecas!

Com a desculpa da ironia trazemos o fantasma para fora: bibliotecários, onde foi que erramos?

Quando deixamos de acreditar que as bibliotecas eram menos um serviço aos usuários e mais uma coleção de papel? Por que nos pusemos nesta posição de perdermos nosso próprio nome — afinal, “bibliotecário” é um título antiquado, clássico, livro-cêntrico…

Não estamos cansados de saber que as qualquer-coisa-tecas existem por causa de seus usuários? As ferramentas, ao menos, sempre nos foram dadas (com nomes pomposos, claro: “Estudo de comunidades e usuários”, “Serviço de referência”, “Desenvolvimento de coleções”). O bonde passou e não percebemos.

Como foi que traímos a confiança dos nossos usuários a ponto de precisarmos trocar nosso próprio nome?

* Nota: uso “responsáveis por bibliotecas” como contraponto a “bibliotecários”, uma vez que o segundo termo tem implicações diferentes no Brasil e na França. No Brasil, bibliotecário é alguém com um diploma específico de bacharel e é regido pelo código de ética de um determinado Conselho profissional. Já na França, é corriqueiro ouvir falar de bibliotecários sem formação na área — o cargo pode ser concedido a pessoas que trabalham em bibliotecas. E também a própria formação dos bibliotecários franceses é diferente da brasileira, e consiste em cursos relativamente curtos (de poucos meses) após cursos superiores em áreas diversas, como Letras e História.

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