Eu acredito em bibliotecas. Eu não acredito em bibliotecas.

A biblioteca morreu. Longa vida à biblioteca. A biblioteca precisa morrer e quem deve desligar os aparelhos somos nós. A biblioteca precisa nascer e quem deve semeá-la somos nós. Os bibliotecários são as pessoas que mataram a biblioteca e são os bibliotecários que devem gerar a biblioteca.

A biblioteca morreu. Ela não serve mais pra nada, mas algumas pessoas insistem que elas são necessárias: é o caso dos bem intencionados legisladores que criam leis e mais leis e mais leis que decidem pela existência de uma biblioteca por escola, uma biblioteca por cidade, uma biblioteca para cada função que uma biblioteca deve ter. Em breve haverá a exigência de uma biblioteca para cada habitante. Já os usuários desistiram da biblioteca. Ou melhor: alguns usuários desistiram da biblioteca. Biblioteca pública faz sucesso com quem não tem Internet em casa ou que não tem recursos para comprar livros. As escolas inserem em seus currículos horários específicos para a visitação das turmas às bibliotecas, podendo condicionar as visitas à escolha (compulsória) de algum título para leitura em casa. A biblioteca universitária só existe porque o MEC, este bem-feitor, decidiu avaliar as instituições de ensino superior também com base no acervo de suas bibliotecas. A biblioteca morreu porque seu uso está condicionado tanto à falta de recursos de seus usuários (que não têm acesso ao que lhes interessa, como sites, revistas, livros) quanto à figura da obrigação: o professor mandou, o Governo mandou.

A biblioteca precisa morrer e quem está ligada a elas é que deve desligar os aparelhos. Se não forem estas pessoas, as bibliotecas continuarão com sua vida vegetativa, mantida por leis que não dizem nada a ninguém e, provável, apenas geram mais desconforto financeiro para o cidadão. A responsabilidade por se posicionar contra essa vida infeliz e incapaz de ser completa é de quem percebe o seu sofrimento no dia a dia justamente para que a morte seja tranquila, sem sobressaltos, com cuidado e acolhimento para ajudar quem sofre (e vai sofrer). Despedidas são difíceis, mas são necessárias.

Os bibliotecários mataram a biblioteca e, quiçá, são os responsáveis pelos comentários mais lamentáveis feitos no velório. Os bibliotecários se dividiram, os bibliotecários não se acolheram, os bibliotecários se acocaram ao invés de proteger a biblioteca da paulada final na moleira. Os bibliotecários reclamaram com razão, mas sem ação. Os bibliotecários mais velhos (de qualquer idade) riram e fizeram chacota dos bibliotecários mais novos (também de qualquer idade) que sonhavam em mudar as coisas. Os bibliotecários se preocuparam mais em seguir as normas do que em analisá-las criticamente. Os bibliotecários, inclusive, se apresentaram como pessoas essencialmente técnicas, e não como cientistas, pesquisadores, inovadores. Quando o bibliotecário se tornou cientista, pesquisador e inovador ele mudou de nome, deixou de se chamar, a si mesmo, de bibliotecário. Os bibliotecários não quiseram discutir política, não quiseram se posicionar como gestores, não quiseram trabalhar em equipe. Ou pior: declararam-se interessados no trabalho em equipe e na catalogação colaborativa — inclusive sabem de cabeça os campos e códigos dos formatos para tal compartilhamento — mas não conseguem se decidir sobre qual dos formatos é melhor para, finalmente, compartilharem e facilitarem o seu trabalho e o dos outros.

Longa vida à biblioteca porque ela, por mais que se diga o contrário, não é um prédio, uma sala, uma estante. Uma biblioteca é algo que existe para acessar, usar, refletir, reorganizar informação. Uma biblioteca é alguém que consegue transmitir conhecimento para quem dele precisa. A biblioteca é a ferramenta que se tem para se desenvolver a cidadania cultural, seja através das habilidades intelectuais ou práticas. Ela independe de tipologia e classificação: aumentar o contato com a cultura da ficção e fantasia, estimular a criatividade e a criação, aumentar a criticidade sobre as informações encontradas e recebidas são todas atividades de uma biblioteca, seja ela escolar, universitária, pública ou qualquer outro tipo que já existe ou que possa vir a ser inventado. A biblioteca é onde as pessoas vão para estudar, para se divertir, para dormir, para usar o banheiro, para fugir; a biblioteca é onde as pessoas vão para usar — eventualmente também há lá o acesso disponível livre, gratuita e incensuradamente, à informação .

A biblioteca precisa nascer e quem está ligado a ela é quem deve puxar a carreta. Quem acredita na biblioteca como algo que ultrapassa classificações deve se organizar e fazer pressão. Leis são importantes, assim como o dinheiro, porque socialmente valorizamos justamente estas duas coisas. Mas a biblioteca precisa, antes disso, ter uma função social útil para quem dela precisa e para quem dela desconhece precisar. A biblioteca que nascer precisa definir seu público, ouvir seu público, dialogar e negociar com seu público. A biblioteca é o que seu público precisa que ela seja. Por mais que as pessoas não saibam exatamente do que precisam, a biblioteca existe, enquanto instituição, para refletir sobre essa necessidade e organizar a sua obtenção.

Os bibliotecários devem gerar a biblioteca. A biblioteca útil só vai existir através do trabalho realmente em conjunto, da celebração das diferenças, da politização e do posicionamento claro; diversidade é difícil, mas nada existe sem ela. Os bibliotecários devem criar as mudanças que precisam acontecer; para cada solução encontrada deve surgir um novo problema. Os bibliotecários devem fantasiar, imaginar e sonhar com a biblioteca ideal; a utopia é um norte cada vez mais distante, mas também cada vez mais útil. Os bibliotecários devem se organizar para possibilitar que o ideal se torne real. Os bibliotecários devem se juntar para qualificar as bibliotecas — seja através da adovocacia junto a governos, seja em iniciativas próprias de e para bibliotecários. Os bibliotecários devem não apenas discutir (entre si, com a comunidade, com os políticos), mas implementar ações — reconhecendo que há diferenças entre si, e que as diferenças são boas. Os bibliotecários devem ser a força que estimula o desenvolvimento das bibliotecas porque muitas pessoas não fazem ideia de que precisam de bibliotecas.

Eu acredito em bibliotecas porque eu acredito que o modelo antigo de bibliotecas é insuficiente. Eu não acredito em bibliotecas passivas, compulsórias, focadas em acervo. Eu acredito em bibliotecas ativas, participativas, focadas em pessoas.