Após 15 anos

Wayne Bivens-Tatum é o bibliotecário de Filosofia e Religião da Princeton University — e também escritor em blog. Recentemente publicou um texto sobre seus quinze anos como bibliotecário, fazendo ponderações bastante interessantes, especialmente sobre carreira profissional e satisfação pessoal, responsabilidade pelas suas próprias escolhas e a dependência de algo “inato” para se sentir valorizado, o desapego não apenas material, mas ideológico, do “querer crescer” na carreira e qual objetivo que resta quando se é desapegado… E, não abordado diretamente no texto, mas que julgo ser de grande relevância: como optar pelo desapego em uma área que está (há tempos) em extinção?

Estas reflexões sobre o fazer bibliotecário sempre foram um interesse deste blog, portanto assim tento justificar a tradução. Também, pesa o fato de eu ser um bibliotecário universitário com uma relativamente jovem carreira nesta posição. O texto, como será notado no seu desenvolvimento, foi pensado originalmente como um reflexão profissional, mas que trata muito mais do existencialismo — teoria filosófica de que cada indivíduo é responsável por encontrar seu sentido para existir — e o taoismo, conjunto de crenças baseadas em acompanhar o ritmo da natureza. Ele fala menos de Biblioteconomia do que poderia se supor, mas ele fala bastante de Biblioteconomia caso a gente queira assim interpretar.

Ele me cedeu autorização para publicar uma tradução. O texto original você encontra neste link. Caso perceba erros ou traduções mal-feitas, por favor, não hesite em avisar!

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Comecei no meu primeiro emprego de bibliotecário há quinze anos, feitos nesta semana. Quatorze anos e nove meses atrás eu já planejava deixar o emprego ou a profissão, principalmente devido a uma pessoa que parecia determinada a destruir minha felicidade e carreira. Felizmente para mim o minúsculo número de pessoas que desde então tentaram isso subestimaram minha resiliência. Profissionalmente, tive tanta fortuna que eu nem penso mais tão mal assim destas pessoas seja lá quando acabo pensando nelas, e seu pequeno número é esmagado pelas tantas grandes pessoas bibliotecárias com quem gostei de ter trabalhado.

Quando comecei a rascunhar esta postagem, pensava em fazer uma reflexão sobre onde me vejo agora que sou um bibliotecário de meia-idade e no meio da carreira. Contudo, com o desenvolvimento do rascunho, ele se tornou em como minha carreira foi influenciada por duas tradições filosóficas que mais me afetaram pessoalmente — existencialismo (especialmente Nietzsche) e taoismo — e sobre como elas moldaram minha carreira e minha satisfação com ela. Não estou certo de que ambas filosofias são completamente compatíveis, mas a consistência tola é o gnomo das mentes pequenas [citação].

Me deparei pela primeira vez com o existencialismo por volta dos meus 18 anos, e eu credito a ele o meu engajamento, em  geral, à salvação da minha vida, uma vez que eu era um coitado desesperançoso, depressivo, semi-suicida que não se importava em pensar que era tudo culpa do mundo. Na sua raiz, o existencialismo ensina que pessoas estão “condenadas a serem livres”, que nossas existências forçam-nos a fazer escolhas, e que elas definem quem nós somos e dão sentido a nossas vidas, e que ao final das contas nós somos responsáveis por estas escolhas, mesmo que escolhamos não escolher. As pessoas geralmente acham isso um gatilho para ansiedade e procuram evitar se responsabilizar pelas suas próprias escolhas ou então acreditam que alguma outra coisa os define. Estão vivendo em má-fé. Por vezes eles submergem em uma grande ideologia, geralmente religiosa ou política, por acreditarem que isso os livra de uma escolha. Por vezes, se reduzem a um papel limitado no qual negam ter escolhas. Às vezes seguem a matilha, desejando o emprego certo e a casa certa e o carro certo e as roupas certas e o estilo de vida certo para impressionar suas colegas ovelhas, na opinião das quais eles baseiam seu valor, ou então se sentem tristes ou bravos por não alcançar estas coisas. Às vezes acreditam que são essencialmente um tipo de pessoas (por exemplo, uma pessoa boa, ou esperta ou gentil) e que esta essência imaginada os define independentemente de suas escolhas e ações. Às vezes eles procuram culpar alguma coisa ou alguém pelas suas condições: a culpa é de deus, ou do diabo, ou do governo, ou da sociedade, ou de seus pais, ou da sua parceira/de seu parceiro, ou estavam apenas seguindo ordens. Eles acreditam que sempre é responsabilidade de outro alguém ou de outra coisa a sua situação e as consequências de suas escolhas, quando, na  verdade, são as escolhas que fazemos e que continuamos a fazer que definem nosso caráter.

Todos se deparam com limitações, e por vezes estas limitações nos oprimem, mas ainda escolhemos responder a nossas situações. Se me encontro em uma situação má, e escolho fazer nada, então de fato estou escolhendo permanecer naquela situação, ou ao menos escolhendo viver nela sem protesto ou sem uma adaptação sensata. Camus, de Beauvoir e Sartre viveram sob a ocupação nazista em Paris. Eles não conseguiriam derrubar os nazistas sozinhos, mas poderiam muito bem se juntar à Resistência Francesa. Somos jogados na existência e o mundo não nos deve nada, e nenhum desejo, esperança ou feitiço alterará isso. De qualquer forma, o que quer que aconteça, a responsabilidade final por como eu reajo à minha situação reside em mim. Escolho o suicídio, ou a continuar a viver (a única questão filosófica séria, conforme considerado por Camus)? Me torno oprimido por um universo vazio de sentido que nada me deve, ou me comprometo em projetos criativos que dão sentido à minha vida? Permaneço deprimido pelo estados do mundo e minha posição nele, ou aceito que a vida e o mundo nunca serão perfeitos e, portanto, engulo a seco e faço o que posso? Me retraio em ilusões confortáveis ou encaro verdades difíceis? Vivo como “eles” desejam que eu viva, ou faço do meu modo? Relaxo ou ajo?

Escolho permanecer um indolente miserável e culpar outras pessoas por não reconhecer meu suposto valor intrínseco, ou ignoro o rebanho totalmente para superar a mim mesmo, tento “dar estilo” à minha personalidade como Nietzsche fala em sua famosa passagem de The Gay Science (tradução de Kaufmann [amazon; cultura]):

Uma coisa é necessária. — É “dar estilo” à sua personalidade — uma arte grande e rara! É praticada por aqueles que examinam todas as fortalezas e fraquezas de sua natureza e então as encaixam em um plano artístico até que cada um deles pareça como arte e razão e até fraqueza deslumbra o olhar. Aqui uma grande massa de segunda natureza foi adicionada; ali um pedaço de natureza original foi removida — ambos os casos através de uma prática duradoura e diária.

Porque qualquer escolha será minha, e minhas escolhas criam a pessoa que sou, independente de quaisquer mentiras reconfortantes que eu venha a contar a mim mesmo. Enquanto algumas pessoas acham esta liberdade aterrorizante, eu a vejo revigorante. Eu não poderia mais culpar o mundo pela minha existência nele, ou depender de alguma esperança mágica de que tudo seria melhor algum dia. Levou algum tempo, mas eventualmente entendi que dependia de mim me tornar em quem eu sou, e ao invés de me destruir, isso me deixou mais forte.

Profissionalmente, liberdade e má fé acontecem de várias formas. Por exemplo, neste meu primeiro emprego com o colega adversário, eu tive diversas escolhas. Eu poderia silenciosamente me submeter e acreditar na opinião baixa de outra pessoa sobre mim e que dizia que eu merecia menos do que eu acreditava merecer, ou eu poderia apenas sair, ou eu poderia ficar em casa reclamando o tempo todo e culpando os outros pela minha miséria, ou eu poderia lutar, ou poderia tentar conseguir um emprego melhor (e não apenas diferente). Optei pelos dois últimos (embora tenha havido algumas reclamações em casa também). Lutei vigorosamente e comecei a procurar por um emprego melhor. Com diversos critérios sobre em qual tipo de biblioteca queria trabalhar, me candidatei a apenas três empregos que eu julgava aceitáveis, e após três entrevistas e onze meses de inquietação eu consegui o emprego que tenho hoje, ou ao menos uma versão anterior dele. Definitivamente me deparei com adversidade neste emprego — é inevitável. Contudo, ao invés de apenas reclamar pelos cantos (apesar de ter feito isso também), me esforcei ao máximo para ter atitudes que melhorassem minha situação. Por vezes corri riscos, incluindo ao menos um que poderia ter seriamente descarrilhado minha carreira caso algo se desse de forma diferente, mas se eu não tivesse corrido tais riscos, eu teria sido responsável por escolher não corrê-los e por permanecer em uma situação da qual não gostava, mas que poderia ter tentado mudar. Conheci bibliotecários (e não-bibliotecários) durante estes anos que desperdiçaram bastante tempo reclamando e culpando outros pelas suas situações e que não fizeram muito para mudar a si mesmos ou à situação. Estas pessoas estão vivendo em má fé profissional.

Às vezes fazemos todas as mudanças que podemos, e então precisamos decidir como viver no mundo que restou. Continuamos a reclamar, ou apenas deixar pra lá? Nos enfurecemos contra o mundo ou o vagamos livre e tranquilamente? É aí que entra o taoismo. Minha cópia amarela, da coleção Penguin Classics [amazon], do Tao Te Ching (uso a transliteração de qualquer edição que estou citando) me acompanhou na faculdade tanto quanto os volumes de Nietzsche ou Camus, embora nem tão bem compreendido até os anos mais recentes. Diversas passagens podem ser relacionadas a trabalho, mas tentarei ser breve. Abaixo, um capítulo do Tao Te Ching (tradução de Stephen Mitchell [amazon]), capítulo 24:

Aquele que fica na ponta dos pés não está firme. Aquele que se apressa não chega longe. Aquele que tenta brilha diminui sua própria luz. Aquele que define a si próprio não pode saber quem realmente é. Aquele que tem poder sobre os outros não pode se empoderar. Aquele que se apega ao seu trabalho não pode criar nada que dure. Se você quer concordar com o tao, apenas faça seu trabalho, então se desapegue.

Traduções variam, mas escolhi a de Mitchell por causa da sua inspiração em apenas fazer seu trabalho e desapegar-se. Se você pode causar mudanças positivas em você mesmo, em sua situação, em sua biblioteca, então as cause, mas em determinado momento a capacidade de fazer mudanças positivas terminará, e após isso é melhor apenas deixar pra lá. Aprender a desapegar-se tem sido uma das mais coisas mais difíceis que já fiz como bibliotecário e como pessoa, mas muitas vezes agora eu posso e acredito que estar mais feliz e mais saudável por isso. Aprender a desapegar-se é também uma escolha, uma que pode ser feita conscientemente, mas que precisa ser feita continuamente. E caso você não queira aprender a deixar pra lá, então você quer que as coisas continuem a te enervar. É uma opção também.

É mais fácil se você não se envaidecer demais da sua própria importância. Abaixo, outra tradução do mesmo capítulo do Daodejing (tradução de Ames e Hall [amazon]) que enfatiza a arrogância e pomposidade:

Um contador de vantagem não tem legitimidade, os que se auto-promovem não são distintos, exibicionistas não brilham, fanfarrões não têm o que mostrar, os auto-importantes estão aqui e já se foram. Estas atitudes são chamas de indulgência e impropriedade no caminho (dao). Tal excesso é geralmente desprezado que nem aqueles que querem coisas conseguem tolerá-lo.

Tenho diversos vícios, mas há tempo tento seguir a regra básica deste capítulo: não seja pretensioso. (Me esforcei menos na arrogância, mas ainda estou tentando.) Não infle o peito ou afirme mentiras sobre si mesmo para parecer mais importante do que você é. Um senso de importância e valor baseados em mentira eventualmente ruirá e já deve ser visto como farça por aqueles ao seu redor. Quanto mais velho eu fico, mais eu tento me lembrar (e dizer publicamente): “não importa quão bem sucedido você é externamente, e não importa quão grande você pode realmente ser, você depende de oportunidades que você não criou necessariamente e de uma rede de pessoas que permitem você fazer as coisas.” Cada segundo que você passa falando quão grande você é é um segundo gasto sem tentar ser grande. E o mais importante e cheio de direitos que você pensa ser, mais você se sentirá desrespeitado por um mundo que não dá a mínima para você.

Cinco anos atrás escrevi uma postagem reflexiva como esta, entitulada criativamente de “Após dez anos“. Nela, discuti não ter o objetivo de longo prazo de “subir”, e escrevi que “Acho que o objetivo deveria ser maestria. Ao invés de pensar sobre o futuro, quero fazer coisas direito no presente e ver para onde estas coisas levam. Pelo o que sei, o objetivo final será o mesmo, mas o caminho é muito mais interessante e menos previsível.” Mais daoísmo, com o qual eu começava a flertar novamente na época.

A tradução de Ames e Hall do Daodejing tem um bom aparato crítico que me auxiliou a entender isso melhor nos últimos anos. Este é um trecho da sua introdução à tradução:

O taoismo […] expressa sua atividade diferencial através do que estamos chamando de formas wu. As três articulações mais familiares desta sensibilidade que tudo permeia são as seguintes: wuwei, wuzhi e wuyu. Elas são, respectivamente, ações não-coercitivas em acordo com o de (“foco particular”) das coisas; algo como conhecer sem depender de regras ou princípios; e desejos que não procuram possuir ou controlar seu “objeto”. Em cada uma destas instâncias […] é necessário se colocar no lugar do que será agido de acordo, o que será conhecido ou o que será desejado, e então incorporar esta perspectiva na sua própria disposição.

Sem um objetivo, eu alcanço coisas. Mesmo embora não tendo um destino traçado, eu vou a lugares bons. Não há nada em particular que eu almeje, mas acabei tendo abundância. Sem preconcepções e preconceitos eu consigo entender mais do que agora.

O clássico daoísta O Livro de Zhuangzi (tradução de Burton Watson) tem uma história famosa sobre o cozinheiro Ding, reverenciado por um senhor pelas suas habilidades com a faca. Quando perguntado sobre seu segredo, cozinheiro Ding responde:

Um bom cozinheiro troca de faca uma vez ano ano — porque ele corta. Um cozinheiro medíocre troca de faca uma vez por mês — porque ele retalha. Tenho esta faca há dezenove anos e já cortei milhares de bois com ela, e ainda assim a lâmina é tão boa quanto como se tivesse vindo direto do afiador. Há espaços entre as juntas, e a lâmina da faca não tem espessura. Se você inserir o que não tem espessura em tais espaços, então há lugar o suficiente — mais do que suficiente para a lâmina fazer seu trabalho. Este é o motivo de após dezenove anos a lâmina da minha faca ser tão boa quanto como ela veio do afiador.

Não tenho certeza de como o talento específico do cozinheiro Ding se aplica ao trabalho bibliotecário, mas haveria algo pior do que ser bibliotecário Ding e trabalhar tão efetivamente quanto possível com o que está disponível, evitando habilmente a resistência enquanto alcançando resultados apropriados. Se eu vier a ter um objetivo, será este, mesmo que seja fundamentalmente inatingível.

O significado disso na prática talvez não pareça tão diferente das ações de alguém ansioso, mas por dentro é diferente. Depois que alcancei o último marco profissional explícito que defini para mim mesmo, passei um tempo refletindo sobre o que eu faço, fazendo mudanças e tentando inventar um novo marco. O que eu quero alcançar? E quando? Aquela terrível pergunta em tantas entrevistas de emprego: onde você se vê daqui a cinco anos? (À qual eu quero responder sempre “hm.. me vejo sendo seu chefe?”) Eventualmente decidi que qualquer objetivo neste momento era desnecessário e comecei apenas a trabalhar em outro projeto. Não é necessário haver um objetivo maior para motivar a ação e reação apropriadas às situações em que me encontro. Há coisas grandes que eu gostaria de fazer, mas se elas não derem certo, tudo bem. Em geral, eu quero fazer o que quer que seja da melhor maneira que eu puder.

Algumas pessoas se inspiram com frases motivacionais ou dizendo a si mesmos coisas como “Quero ser grande! Quero fazer coisas grandiosas!”. Mas você pode ser grande e fazer coisas grandiosas apenas respondendo às situações conforme elas aparecem de acordo com o melhor da sua habilidade. Se você quer algo feito, faça-o. Caso não possa ser feito, deixe pra lá. E se você nunca atingir grandeza/grandiosidade? Bom, poucos de nós a alcançam. O mundo continua a girar, de qualquer forma. Como um amigo uma vez me disse: a biblioteca em que trabalho já existia antes de eu nascer e seguirá existindo depois de eu morrer.

Profissionalmente, caso uma oportunidade melhor surja, a colherei. Caso não surja, não me preocuparei. Caso eu me torne grande, que assim seja. Caso não, está tudo bem, também. Em determinado momento alcancei o estado em que raramente estrago meu contentamento presente com sonhos de algum futuro em que tudo seria melhor se eu apenas pudesse fazer isto ou conseguisse aquilo ou fosse alguém diferente ou estivesse em algum lugar diferente. Pela maior parte da minha juventude, e também pelos primeiros anos de minha vida como bibliotecário, eu era assim. Talvez o motivo pelo qual eu não seja mais assim é que eu estou uma posição profissional melhor do que eu estava há 15 anos, mas conheço bibliotecários em situações similares e que estão ainda infelizes em seus trabalhos ou com suas vidas. Por enquanto eu apenas faço tão bem quanto consigo e vejo o que acontece. Após 15 anos, é um lugar bom para se estar.