As Eras da comunicação cultural

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Vejamos, contudo, como se chegou ao estado da explosão da literacia. Santaella (2003) comenta das seis eras da comunicação cultural, momentos pelos quais a civilização humana passou e que foram modificadas pelas tecnologias intelectuais. Em cada uma, surgiram novos métodos de se comunicar aos outros suas impressões do mundo, e, deste modo, foram surgindo diferentes necessidades a serem desenvolvidas.

A autora cita a cultura Oral, a cultura Escrita, a Impressa, a de Massas, a das Mídias e, a mais recente, a Digital. Cada uma exige um novo aprendizado para ser possível: a forma oral, baseada no relato de acontecimentos – fatuais ou míticos – é diferente da escrita pelo fato da segunda exigir o conhecimento prévio do conjunto de símbolos que gravarão os sentidos. A leitura e a escrita, uma vez legada apenas aos governantes e aos representantes dos deuses na Terra, agora, depois de Gutenberg, são acessíveis a qualquer civil e mortal que passou pelo processo de alfabetização. Do mesmo modo, a cultura de massas é a extrapolação da produção intelectual e de entretenimento para a grande população: através dela, todos têm acesso ao que é produzido a um baixíssimo custo, desde que contem com o aparato tecnológico. A televisão, o melhor exemplo desta era cultural, representa o consumo massivo do conteúdo que é gerado sem distinção dos públicos diferenciados que compõe a grande massa sintonizada à frente da TV.

Do mesmo modo, a diferença entre era de Massas e a era Digital é a forma pela qual o conteúdo dos discursos é acessado, além da diferença fundamental da falta de distinção clara entre produtor e consumidor. Enquanto antigamente o transmissor emitia um sinal único, de mensagem padronizada, hoje é possível enviar diversos conteúdos diferentes – o receptor torna-se consumidor de fato, escolhendo o quê deseja ver, ouvir, ler –, além de ser possível tomar também o papel de produtor. Entre as duas, na era das Mídias, segundo Santaella (2003), quando diversas tecnologias conviviam com a televisão (exemplo clássico de veículo de massas), surgiu o narrowcasting, conceito contrário ao de broadcasting, e que explica o surgimento de produtos destinados a fatias específicas do mercado, como revistas e programas de TV para segmentos sociais específicos.

Cockpit Poser, de Martin Terber/Jesus Presley @ Flickr.com
Na Era Digital, o computador pessoal revolucionou a indústria intelectual e de entretenimento. Foto: “Cockpit Poser”, de Martin Terber/Jesus Presley no Flickr.com

Somado ao narrowcasting, a digitalidade oferece, segundo Santaella, novas possibilidades de programação: “Cada um pode tornar-se produtor, criador, compositor, montador, apresentador, difusor de seus próprios produtos.” (SANTAELLA, 2003, p. 82). Isso significa dizer que todos, hoje, têm a possibilidade de ter sua própria produtora de conteúdo. E, além disso, causado pela transformação dos sinais analógicos em digitais, os conteúdos multimídia estão facilitados.

No entanto, ao contrário do que pode parecer, uma era cultural não exclui a outra: “[ . . . ] quando uma nova tecnologia de comunicação é introduzida, lança uma guerra não declarada à cultura existente, pelo menos até agora, nenhuma era cultural desapareceu com o surgimento de outra.” (SANTAELLA, 2003, p. 78). A transmissão oral, por exemplo, é presente até os dias de hoje, em que somos grandemente dependentes da energia elétrica para controlarmos fluxos de bits. Do mesmo modo, ao invés de acabarem com a tecnologia anterior, elas vão somando-se umas às outras, mesclando-se e possibilitando infinitas novas configurações de comunicação. Uma coisa, contudo, não se modifica: a hipertextualidade.

http://br.youtube.com/watch?v=PJmuT7bQu_M

Uma previsão futurológica sobre o futuro da mídia. “Prometeus“, de Casaleggio Associati, com legendas em português.


Referências:
SANTAELLA, Lucia. Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. Coordenação Valdir José de Castro. São Paulo: Paulus, 2003.