Boatos na internet

Semana passada recebi duas mensagens interessantes: uma alertava sobre a possibilidade do WhatsApp passar a ser pago e outra oferecia uma grande oferta de trabalho. Ambas claramente mentirosas.

Mas como eu sei que elas são mentirosas? E por que outras pessoas as repassaram acreditando em sua veracidade?

Um dos principais fatores para evitar cair em ciladas virtuais é a desconfiança: confiar demais no próprio taco é receita certa para ficar cego quanto aos perigos ao nosso redor e, como já disseram uma vez, o otário é seguro de si.

A desconfiança saudável é especialmente necessária em tempos de pós-verdade. E a primeira coisa que podemos questionar ao receber uma mensagem é a fonte da informação.

A fonte da informação

As duas mensagens que recebi, e que inspiram e ilustram este texto, foram enviadas por pessoas conhecidas, próximas a mim. E este é um dos pontos delicados ao se julgar a fonte da informação: a pessoa que enviou a mensagem é próxima a mim e, portanto, posso confiar nela! Ela quer apenas meu bem!

Certo: é provável que as pessoas próximas gostam de você e querem alertar sobre algo espetacular ou revoltante… mas quem criou a mensagem originalmente? A fonte de informação, neste caso, é de onde surgiu a mensagem em primeiro lugar.

Print de mensagem de WhatsApp que alerta ao fato de que o uso do aplicativo será pago a partir de determinada data caso ela não seja repassada, sob o risco de ser cadastrado como “inativo.”

No caso da mensagem acima, recebida pelo WhatsApp, a mensagem não vem de nenhuma fonte oficial: quem está repassando a mensagem é um colega/amigo/familiar, não o aplicativo em si. Também não é uma mensagem verificada por um veículo jornalístico sério e reconhecido.

Dica: se uma mensagem referente a uma empresa ou organização não está sendo divulgada através de um canal oficial desta mesma empresa ou organização, isto é suficiente para questionarmos sua veracidade.

Já a outra mensagem que recebi foi por e-mail: o reencaminhamento de uma proposta de emprego temporário emitido por uma Professora Doutora, contendo inclusive um endereço de e-mail pessoal para contato.

Print de trecho de e-mail com oferta de trabalho com indicação de nome e endereço para contato supostamente oficial.

Este golpe pode ser mais difícil de identificar: caso eu opte por enviar uma mensagem ao e-mail indicado para confirmar a oferta, não há nenhuma certeza de que o e-mail não tenha sido criado e seja gerenciado justamente pelos fraudadores. O uso de um endereço genérico e gratuito (“@gmail.com,” no caso) pode servir de indício para desconfiarmos da fonte.

Professores, e profissionais em grandes empresas, geralmente têm acesso a endereços de e-mail institucionais (“@nomedaempresa.com,” por exemplo). Qualquer e-mail assinado por alguém que se diz vinculado  a uma universidade ou empresa que não seja remetido por um e-mail desta determinada instituição precisa ser lido com cautela.

De qualquer forma, há muitas pessoas que não usam e-mail institucional… e portanto a mensagem poderia ser verídica! O que fazer?

Fácil: procure a página da instituição à qual a pessoa se diz vinculada e… ligue! Mande uma mensagem para um e-mail oficial! Questione se aquela pessoa realmente está ligada àquela instituição e peça uma confirmação de qual a melhor forma de fazer contato com ela.

Dica: se você tiver acesso a um endereço de e-mail institucional do local em que trabalha, use-o. Isto servirá para garantir que o seu nome não seja usado por golpistas e pessoas mau intencionadas.

As vantagens oferecidas

Outro ponto a ser questionado são as supostas vantagens e ofertas oferecidas nas mensagens. Ou você vê muitas coisas realmente boas e especiais sendo distribuídas de graça por aí?

Trecho de e-mail com oferta de trabalho fácil. A mensagem afirma não se tratar de uma seleção, mas sim de uma contratação imediata.

O e-mail que recebi ofertava um trabalho muito bem remunerado apenas para quem respondesse à mensagem — “NÃO É SELEÇÃO; AS PESSOAS INDICADAS SERÃO CONTRATADAS IMEDIATAMENTE.” diz a mensagem, em negrito e caixa alta. Em tempos de crise, que oferta mais tentadora, caindo do céu no meu colo.

O problema é justamente esse: a vantagem oferecida está em desacordo com o contexto em que vivemos. Primeiro, pelo fato de existir uma crise de emprego, o simples anúncio de uma vaga sem seleção já deve causar espanto — se é tão imediata a contratação, como a mensagem sequer chegou a mim? As vagas já não deveriam ter sido preenchidas “imediatamente?”

Segundo, o golpe ignora qualquer boa prática de recrutamento e seleção — quem está a mais tempo no mercado de trabalho já deve ter se deparado com isso (e quem ainda não iniciou sua vida profissional é bem provável que já se inquiete com o tema): currículos, entrevistas, processos seletivos. Uma contratação imediata, sem entrevista, dinâmica ou análise de currículo é literalmente boa demais para ser verdade (você se lembra que estamos em uma crise?).

Dica: se a esmola é demais, o santo desconfia. Simples assim.

Erros crassos

Mais um fator comum aos golpes e boatos na internet são os erros crassos: tanto os erros de português quanto os erros factuais.

A mensagem sobre o WhatsApp, da primeira imagem deste texto, por exemplo, comete diversos erros:

  • ela fala em “Amanhã, às 6 horas” sem especificar que dia exatamente é “amanhã” — uma mensagem oficial geralmente vai ser o mais completa e clara possível;
  • ela fala em “isso é por lei” sem especificar exatamente de qual lei está falando — provavelmente porque não existe uma lei sobre o assunto;
  • a mensagem contém erros de pontuação, de repetição, na formação de frases e parágrafos, etc;
  • a mensagem fala em “whatsapp [em minúsculas] Messenger” — se o texto é oficial, a empresa provavelmente usaria o nome com as  escrita correta (“WhatsApp”, com o “A” maiúsculo caracterizando o applicativo);
  • por fim, o encerramento da mensagem é simplesmente caótico e desestruturado. E qualquer empresa que se comunique dessa forma com seu público não poderia ser levada a sério.

Estes três tópicos, espero, devem ser suficientes para filtrar a maior parte das correntes e boatos. Refletindo sobre a fonte da informação, as vantagens e os erros óbvios você consegue, pelo menos, pensar antes de disseminar qualquer informação duvidosa. Lembre-se: se não confiou em uma informação (enviada por qualquer pessoa, inclusive amigos, familiares e colegas), cheque sua veracidade em fontes oficiais ou reconhecidamente confiáveis.

Por fim, e este último tópico talvez seja o mais complexo, trata da segurança que o conhecimento técnico oferece para evitar cair em golpes na internet.

Uma proteção extra: o conhecimento técnico

Conhecimento é poder — você já deve ter ouvido essa expressão. E é verdade: quanto mais você conhece algo, menos provável que você seja passado para trás se conseguir identificar inconsistências relativas a este algo.

E por vezes os boatos e golpes pecam por repetirem as técnicas de outros golpes anteriores, ou por estarem tecnicamente errados. Nestes casos, quanto mais você conhecer golpes e boatos de internet, mais segurança terá em julgar novas mensagens estranhas.

Por exemplo: o WhatsApp não passará a ser pago apenas pelo fato de você não responder a uma mensagem ou, pior, repassá-la adiante. Especialmente por envolver transação financeira, a empresa deverá ser extremamente cuidadosa em como implementará uma versão paga de seu serviço se não quiser ser vítima de processos massivos e estrondosos.

Outro exemplo: o CEO (diretor) do WhatsApp não é Jim Balsamic — e, sim, Jan Koum. Esta informação é descoberta com uma simples pesquisa no Google por “CEO WhatsApp.” Ainda, Jim Balsamic é um velho conhecido dos golpistas e boateiros da internet

Mais um exemplo: os boatos geralmente fazem alusões a pessoas sem identificá-las, como no caso do “amigo que é dirigente de uma Comissão,” no golpe por e-mail, e que jamais é mencionado nominalmente. Desta forma, o contato ou outra forma de averiguação de veracidade ficam prejudicados, o que eleva a suspeitas de boato ou golpe.

Mais um fator comum a todos os boatos e golpes é a necessidade de agilidade: você precisa responder rápido, precisa encaminhar o quanto antes, precisa pagar logo a fim de não ser prejudicado ou a fim de receber uma vantagem. Não pense, repasse! Se uma mensagem estranha exige que você aja o mais rápido possível, aja: pesquise a verdade e encaminhe-a para a pessoa que te encaminhou o boato.

Outra característica duvidável é a necessidade de investir alguma quantidade em dinheiro para garantir a vantagem oferecida — os R$ 150,00 de “taxa de cadastramento única” do golpe por e-mail é um exemplo.

Aumente sua segurança

Nada, especialmente na internet, é 100% seguro. Todas as técnicas e medidas de segurança devem sempre entendidas como métodos para garantir “mais segurança,” e não “segurança completa.” Evite riscos com informação e atualização.

Procure informações atualizadas sobre o noticiário nacional e internacional. Se puder e tiver interesse, também leia um pouco sobre tecnologia e internet. Bons sites que ajudam a desmistificar assuntos do momento é o Me Explica e o Boatos.org. Este último, inclusive, já escreveu sobre o boato do WhatsApp vir a ser pago aqui.

Pesquise no Google, mas também avalie os sites recuperados. A Wikipedia e os sites e páginas oficiais (ou verificadas) das empresas e instituições citadas nas mensagens são ótimos lugares para se iniciar a pesquisa. Depois, procure por portais de notícias com histórico de qualidade reconhecida.

Se você achar pouco os três critérios (mais um extra) que mencionei neste texto, leia as dez dicas de Leonardo Sakamoto para identificar notícias falsas, os quatro sites que vão te ajudar a não compartilhar notícias falsas e seis formas fáceis de saber se uma história que viralizou é um boato (em inglês).

Créditos da imagem de cabeçalho: autor desconhecido.

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