O incrível caso das bibliotecas que jogam livros fora

Volta e meia aparecem notícias bem intencionadas (1; 23; 4; ad nauseam) sobre o absurdo de bibliotecas estarem jogando livros fora. Mas isso é realmente um absurdo?

O desfazimento de acervo em uma biblioteca tem um nome técnico: o descarte. Ele não é, ou não deveria ser, uma prática incomum. Na verdade, tão importante quanto a aquisição de acervo é a função de tirar de circulação os itens que não são mais necessários — afinal de contas, espaço físico é um bem precioso.

A atividade de descarte acaba por ser mistificada por uma série de motivos e também pode ser abordada por diversos viézes. E o primeiro tópico desta discussão precisa ser a ideia de que todo livro é útil sempre.

Todo livro é útil sempre?

Em resumo, não: nem todo livro é útil sempre.

Livros são objetos mágicos, que expandem nosso conhecimento de mundo e de nós mesmos; livros são coisas raras e caras, que se cuidadas duram centenas de anos; livros carregam consigo uma aura de aprimoramento e intelectualidade, da luta do conhecimento contra a ignorância. Mas no fim das contas os livros são apenas livros.

E livros que não têm mais serventia em um lugar não tem por que ocupar o espaço que poderia ser mais bem usado.

O desapego ao objeto da coleção é o que difere, em grande parte, a Biblioteconomia da Arquivologia e da Museologia: excetuando-se obras raras, a Biblioteconomia trata, em geral, de obras massificadas que existem em múltiplas cópias. O objeto livro, para a Biblioteconomia, é menos importante do que a organização e “encontrabilidade” da obra no contexto de todo o acervo.

Mas isso significa que os livros, enquanto objeto, são desimportantes? Não. Eles são importantes e desimportantes, depende do contexto. Quase como um livro de Schrödinger.

O processo de mistificação e desmistificação do objeto livro deve ser mais discutido, mas, em resumo, livros de biblioteca podem e devem ser descartados de tempos em tempos, desde que com base em motivos e critérios claros e estabelecidos. E estes motivos variam de biblioteca para biblioteca, de região para região e com o passar do tempo.

Descarte bem feito e transparência

Sempre que se fala em “bibliotecas” pensamos numa categoria amorfa e homogênea — todo mundo sabe o que é uma biblioteca. O problema é que a realidade não é tão simples assim. Há bibliotecas universitárias (públicas e privadas!), há bibliotecas públicas e comunitárias, há bibliotecas escolares e prisionais; a lista segue. Enfim, onde há vontade há biblioteca. E cada uma dessas bibliotecas é diferente entre si, seja por serem de tipos diferentes, seja por estarem em contextos sociais e históricos diferentes.

E os critérios de descarte devem sempre levar em consideração estas especificidades.

O documento onde são definidos os critérios de seleção para descarte (e para aquisição e incorporação também) se chama Política de Desenvolvimento de Coleção. Ela dá transparência a todo o processo de crescimento (ou diminuição) da coleção, afinal, cada biblioteca serve a um grupo de pessoas e nunca existe num vácuo social.

Um descarte bem feito, portanto, será transparente: ele seguirá uma série de critérios definidos por bibliotecários e referendado pela estância superior à qual a biblioteca é subordinada. Idealmente (mas infelizmente nem sempre) esta Política de Desenvolvimento de Coleção será um documento público, divulgado no site da biblioteca ou disponível de outra forma para consulta pela comunidade interessada.

Não é apenas por existir que o livro deve ficar nas prateleiras daquela biblioteca: cada leitor deve poder acessar os livros que lhe interessam, e cada livro deve poder chegar ao leitor a que se destina. Os que sobram podem ser descartados.

Enfim, os critérios

Entre os critérios que são levados em conta, geralmente estão os seguintes: os interesses, as habilidades e os conhecimentos dos usuários, a atualidade do conteúdo e o estado de conservação do exemplar.

Desta forma, a Política de Desenvolvimento de Coleções deve levar em consideração os interesses dos usuários: esta é uma biblioteca pública (onde os usuários têm interesses variados e geralmente superficiais)? Ou é uma biblioteca especializada, que serve a pesquisadores que estão envolvidos intimamente com assuntos específicos e mergulham neles? Um livro sobre a anatomia do sistema locomotor de cavalos talvez faça mas sentido em uma biblioteca especializada em veterinária do que em uma biblioteca pública — e talvez um livro mais genérico sobre cavalos faça mais sentido em uma biblioteca pública.

Outro critério são as habilidades e conhecimentos dos usuários. Não estaria apenas ocupando espaço precioso um livro escrito em sueco mas nas prateleiras de uma biblioteca que atende a nenhum falante de sueco? Este e o critério anterior ambos devem ser medidos através de uma pesquisa demográfica sobre a população a quem a biblioteca se destina, o Estudo de Usuários. Ou seja: apenas por conhecer o tipo de biblioteca e a quem ela se destina já temos bons indícios do que deve (ou não precisa) estar nas estantes.

Os dois últimos critérios gerais dizem respeito ao item em si: a atualidade do conteúdo e o estado de conservação do exemplar.

Um livro científico clássico — cujo conteúdo já foi ultrapassado por pesquisas mais recentes, mas que ou ainda é bastante prenhe de questionamentos ou pode ser usado para traçar uma perspectiva histórica de uma ciência — pode ser muito útil em uma biblioteca especializada, onde seus usuários saberão julgá-lo e identificá-lo como tal. Mas ele teria pouca serventia em uma biblioteca escolar, onde estão sendo dados os primeiros passos na aprendizagem formal das ciências. Já um livro de literatura clássica pode muito bem ser útil em bibliotecas escolares, públicas, comunitárias, prisionais… mas não muito necessário em bibliotecas especializadas. Outra área cujos conteúdo caducam com bastante frequência é o Direito — a opção (e sempre é uma opção) por manter um livro desatualizado na estante deve ser feita em relação aos interesses, conhecimentos e habilidades dos seus leitores: em uma escola de Direito, um livro antigo pode ser usado como parâmetro para estudar as novas leis e comparar doutrinas, mas talvez seja necessário substituir os diversos exemplares repetidos e desatualizados por novos e atualizados, e manter apenas um ou dois com finalidade histórica.

Por fim, também é necessário avaliar quão bem o item ainda pode ser manuseado e utilizado. Obras riscadas, rasgadas, manchadas e amassadas não apenas transmitem desleixo e falta de cuidado, mas também indicam ao leitor que não há problema em riscar, rasgar, manchar e amassar as obras naquele acervo. O dano ao patrimônio da biblioteca deve ser coibido, especialmente com campanhas de conscientização. Se o livro estiver em muito mau estado, folhas caindo, lombada quebrada, ou infestado de pragas, a opção por mantê-lo na estante sem os devidos reparos deverá ser muito bem justificado, pois será prejudicial ao restante da coleção (como no caso das infestações) e ao usuário (pois ele poderá ficar inseguro em manusear o exemplar como deve).

A indignação seletiva

“‘[…] livro a gente não joga fora. A gente doa para instituições ou escolas. No lixo ele não tem utilidade nenhuma’, diz a estudante.”

Estamos, portanto, entendidos que colocar livros fora não é um atentado à Educação e à Cultura (em letras maiúsculas). Muito menos é uma afronta a quem não tem acesso à educação e cultura: muitos dos livros descartados em bibliotecas estão em mau estado ou plenamente desatualizados. Uma afronta seria oferecer estes mesmos livros que não servem nem para bibliotecas (mais sobre isso abaixo) à comunidade em campanhas de troca de livro ou “geladeiras culturais”. As pessoas precisam ter acesso a livros em bom estado, de conteúdo atualizado e que lhes interessem. Disponibilizar um dicionário de veterinária alemão da década de 40 em uma “geladeira cultural” não é apenas cínico, é imoral.

“‘Tudo bem que está antigo, faz uma doação. […] Reúne e doa para as bibliotecas que não têm, para outras escolas. Mas não fazer essa situação.'”

Bibliotecários, geralmente cientes das dificuldades de outras bibliotecas, geralmente oferecem seus descartes em bom estado para outras bibliotecas — “na biblioteca em que eu trabalho este livro não é útil, e na sua?” Inclusive, deveria haver um Observatório de Bibliotecas no Brasil que gerenciasse esta oferta e distribuição de acervo estagnado, mas para isso seria necessário uma mobilização coerente da classe.

“‘Do ponto de vista da educação, nós entendemos que poderia ter sido dada melhor finalidade. Poderia ser doado a uma biblioteca ou para as escolas municipais’, disse a secretária.”

Por fim, as bibliotecas recebem muito lixo como doação. Sim: as pessoas acham que só porque é livro, ele deve estar em uma biblioteca. Não na sua biblioteca particular (afinal, para o doador, a obra está suja, estragada, desatualizada), mas em alguma outra biblioteca. Doadores geralmente entendem que livros que não servem para suas bibliotecas particulares são adequadas para as bibliotecas dos outros, novamente um pensamento se não cínico, imoral. Bibliotecas não são depósitos de livros, especialmente de livros que ninguém mais quer.

É indignante que livros que poderiam, de fato, servir para alguém ler e se informar ou se divertir sejam colocados no lixo? Sim. Estes casos devem ser apurados e denunciados.

Todos os livros que bibliotecas descartam podem servir para alguém ler e se informar ou se divertir? Não. E precisamos desmistificar o objeto livro — livro estragado e desatualizado provavelmente não é útil para ninguém exceto recicladores.

Por que bibliotecas têm tantos livros descartáveis — foram recebidos por doação ou foram mal comprados? Ou simplesmente foram danificados pelo uso ou seu conteúdo caducou organicamente?

Cada caso é um caso. Há sim erros e abusos no desenvolvimento de coleções. Mas vociferar, simplesmente, e sem a compreensão completa do fato, quando se vê notícias de bibliotecas descartando livros é improdutivo e ignorante. Da próxima vez que você ver alguma notícia sobre “bibliotecas jogando livros fora”, respire e pergunte: onde está a Política de Desenvolvimento de Coleções?

“‘Eu acho que é como se estivessem jogado a semente da educação fora. Tantas outras instituições e pessoas que estão precisando de livros e não têm condições de comprar, ver esse ato gera revolta’, lamentou.”
Ilustração: The House of Leaves - Burning 4 / LearningLark, 2009.

One comment

  1. Muito bom seu texto,me tirou muitas dúvidas e serviu para mostrar que somos capazes sim de descartar materiais,pois estudamos e nos preparamos para fazer PDC.
    muito obrigada.

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