Dessacralizar e desmistificar o livro

Um dos últimos posts que escrevi foi sobre como o desenvolvimento de coleções é importante para bibliotecas e sobre como algumas pessoas se surpreendem pelo fato de livros irem para o lixo às vezes: muitas pessoas bem intencionadas acreditam que livros, apenas por serem livros, precisam ser armazenados e disponibilizados ao público, independentemente de avaliação.

Por que isso acontece?

A sacralização, ou mistificação, do livro ocorre quando alguém — uma pessoa ou uma instituição — coloca o objeto livro como foco de preocupação. Esta atitude procura estabelecer uma forma de valorização do livro, mesmo que enquanto objeto, e de todas as funções a ele relacionadas, como a leitura e a educação. Contudo, há mais prejuízos do que benefícios em tal abordagem.

Valorizar o livro (e consequentemente a leitura) se diferencia da sua mistificação, pois o segundo se atém ao objeto.

Ao tratar o livro como objeto sacralizado, todas as atividades a ele relacionada ficam impossibilitadas de serem questionadas. O seu descarte enquanto lixo, como visto na postagem anterior, se torna motivo de preocupação e ansiedade — além de se transformar em polêmica midiática — sem que se sejam entendidos (ou sequer cogitados) os motivos que levaram alguém ou alguma instituição a tomar a decisão. Com a abordagem mistificadora, o objeto incorpora em si próprio toda uma gama de significado, e, ao atacar o objeto, entende-se que o que está sendo atacado são os significados incorporados. No caso do livro, dizer que um deles é lixo pode vir a ser entendido que “Educação” e “Cultura”, por exemplo, podem ser também considerados lixo.

Já na valorização do livro, o que tem peso — seja financeiro, emocional, afetivo, cultural, social, educativo — não é apenas o objeto. Valorizar o livro, em contraposição a mistificá-lo, significa reconhecer a importância de cada uma das esferas que o objeto toca: livros são importantes, sim, mas porque bibliotecas são importantes, porque o ensino é importante, porque a cidadania cultural é importante, porque o lazer é importante. Valorizar um livro deveria significar colocá-lo em perspectiva de todas as implicações a ele relacionadas. Valorizar um livro significa explicar que “Este livro é importante porque…”.

Aquilo que é mistificado não pode ser criticado ou questionado — ou apenas sob duras penas de estigmatização. Qualquer dúvida levantada sobre o livro, quando objeto sagrado, é recebida sob vaias e acusações de iconoclastia. Tudo aquilo que é sacralizado ou mistificado se torna mais distante do real.

E o prejuízo desta falta de criticidade se dá na dificuldade de dialogar sobre prioridades, valores e ações de valorização.

Não sacralizar, mas valorizar

Para discutirmos o valor de um livro, é necessário, de antemão, reconhecer que diferentes atores atribuirão diferentes valores a esta classe de objetos: há quem veja livros como a salvação da sociedade; há quem nunca sentiu falta de ler livros em seu cotidiano.

Somente a partir do momento em que reconhecemos a existência de uma gama de valores atribuída ao livro é que podemos pensar sobre como organizar recursos para definir prioridades: bibliotecas escolares, livros de literatura, publicações científicas, livros acessíveis… qual deles é o mais importante, ou o mais prioritário? Em que momento e para quem? As perguntas são necessárias, pois recursos (inclusive tempo) são escassos e se há mais de uma prioridade, o senso de importância passa a ser dividido, logo, diminuído.

Simplesmente afirmar “Livros são importantes”, como se qualquer livro fosse tão relevante quanto qualquer outro em qualquer contexto, acaba por diluir justamente o debate sobre prioridades. E bibliotecários deveriam ser os primeiros a fomentar a desmistificação do livro, pois para cada leitor há um livro, e há um livro para cada leitor.

Inclusive é bastante problemático delegarmos apenas aos livros (e à leitura) valor cultural. Estou olhando pra vocês, pessoal da Biblioteconomia.

Uma cultura (elitista) baseada em leitura

É inegável que discutir acesso à leitura é discutir elitismo. Em uma população não-leitora, quem tem acesso corriqueiro a livros são poucos e, provavelmente, é quem tem recursos financeiros para manter este luxo. Infelizmente, no Brasil, quem pode ter acesso a livros acaba por preferir comprá-los a usar bibliotecas (e, logo, lutar por bibliotecas melhores).

E valorizar livros (não apenas mistificá-los) está diretamente relacionado com a ideia de que há uma “alta” e uma “baixa cultura”.

Sim, livros são realmente importantes, estimulam a aquisição de vocabulário, estimulam a memória, permitem registrar conhecimento de uma forma duradoura jamais vista antes na história da humanidade. Livros são ótimas ferramentas para estudo e lazer, em grupo ou solitariamente.

Mas livros não são tudo — e entra aqui novamente a provocação sobre a valorização do livro e a função das bibliotecas.

Livros não são tudo, porque não é apenas o acesso ao livro que permite alguém a desenvolver sua cidadania cultural. Livros não são tudo, porque não é apenas a criação de bibliotecas estipulada por lei que as fará serem boas a quem as usa. Bibliotecas não são depósitos onde as pessoas vão absorver conhecimento.

E livros, eventualmente, podem ser vistos erroneamente como objetos para absorção de conhecimento.

Grupos de estudo, grupos de debate, grupos de trocas culturais, grupos para diversão, além de propiciar um espaço seguro e acolhedor para se pensar criticamente sobre diferentes mídias e ferramentas (músicas de diferentes estilos, noticiários de diferentes linhagens políticas, propagandas em diferentes formatos e persuavisidades, revistas de diferentes especialidades, aplicativos com os mais diferentes fins, para citar apenas alguns)… Bibliotecas podem, e deveriam, fazer tudo isso. Mas infelizmente o que se vê é a ideia de que livros são a solução para todos nossos males — e que o serviço principal de bibliotecas deve ser oferecer o acesso a livros. Ao falarmos sobre valorização de livros, precisamos falar sobre valorização de culturas — de toda sua gama: cultura de massa, cultura oral, cultura popular, cultura erudita, cultura visual, cultura material, cultura imaterial.

Ao falarmos apenas sobre valorizar o livro, corremos o risco de enaltecê-lo apenas como objeto (e, logo, mistificá-lo). Ou seja: perdemos a oportunidade de defender o acesso à cultura na qual cada pessoa tem interesse em participar. Defender apenas a cultura escrita e erudita — defender o livro como objeto — nos afasta de todas as outras possibilidades educativas, criativas e recreativas que temos (ou deveríamos ter) à nossa disposição.