E o hipertexto?

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Segundo Pierre Lévy, “[ . . . ] a estrutura do hipertexto não dá conta somente da comunicação. Os processos sociotécnicos, sobretudo, também têm uma forma hipertextual, assim como vários outros fenômenos. O hipertexto é talvez uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que significações estejam em jogo.” (LÉVY, 1993, p. 25). Ou seja: a hipertextualidade é um fenômeno que permeia todas as produções humanas, uma vez que o próprio cérebro humano funciona hipertextualmente, através de referências e assimilações por proximidades.

O hipertexto é toda a cadeia lógica que nos leva de um lugar ao outro no plano das idéias, através de relações e associações reticulares. O conceito pode ser entendido, então, para além da palavra escrita. Para o autor, “Tecnicamente, um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos, ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos.” (LÉVY, 1993, p. 33). É possível, deste modo, alocarmos um hipertexto dentro de outro hipertexto, aumentando ainda mais a sua complexidade.

Outra das características hipertextuais é a modularidade – atingida apenas parcialmente em documentos impressos. Ela trata da possibilidade de isolar elementos constituintes de um fluxo de comunicação e utilizá-lo em outro fluxo, referenciando-o e renovando suas capacidades significativas. Uma frase, uma imagem, uma listagem apresentada em um livro pode, então, ser facilmente transportada para uma nova publicação. Para Lévy, “O hipertexto também desvia em seu proveito alguns dispositivos próprios da impressão: índice, thesaurus, referências cruzadas, sumário, legendas…” (LÉVY, 1993, p. 37). Cada elemento da publicação, então, pode servir como um elo intra ou extratextual, dependendo do modo como foi utilizado. Um índice e o sumário, por exemplo, ligam partes periféricas de um livro ao seu âmago, e referências e notas de rodapé podem se tornar links para textos de fora do volume.

A leitura não-linear, ainda, grande trunfo da hipertextualidade, não se reproduz apenas em volumes grandes. Jornais, por exemplo, são lidos em sua maioria de maneira não-contínua: pula-se de título para título, escaneia-se as figuras em busca de algo que chame a atenção, lê-se de trás pra frente, lêem-se as colunas mais interessantes: lêem-se pedaços do todo.


Referências:
LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Tradução Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: 34, 1993.