Pelo fim das fichas catalográficas

Fichas catalográficas em livros são um atraso: muitas vezes não seguem um padrão (quando deveriam) e seus maiores utilizadores (bibliotecários) geralmente as ignoram. Por que acabar com as fichas catalográficas e pelo que substituí-las?

Primeiro, é necessário um mea culpa: sou bibliotecário, portanto, mea maxima culpa. As críticas deste texto não são sobre o fazer bibliotecário — ou ao menos não são uma proposta da sua extinção. Antes disso, trata-se de uma provocação para a nossa melhoria e evolução.

A catalogação é uma tarefa exclusiva do bibliotecário, bacharel registrado em Conselho profissional, e as normas de documentação da ABNT especificam onde as fichas catalográficas devem ser impressas nos livros. Contudo, há diversas fichas publicadas que não são assinadas, que se encontram em lugares estranhos e discordantes do proposto pela ABNT ou que até mesmo não seguem os padrões biblioteconômicos.

Temos aí dois problemas: a confiabilidade das informações da catalogação na publicação e a desobediência às regras de apresentação das fichas. E talvez sua solução implique em mudanças profundas para todos nós.

A ficha que não é assinada

Vamos começar com um voto de confiança às editoras que publicam livros sem que suas fichas catalográficas sejam assinadas (por bibliotecários, obrigatoriamente): poderíamos desconfiar destas empresas, por exemplo, supondo que elas mantêm uma ficha mestre sobre a qual fazem alterações sem revisão por bibliotecários. De qualquer forma, creiamos que, sim, há bibliotecários (contratados ou terceirizados) responsáveis por estas informações.

O problema da falta de identificação da pessoa que criou a ficha é a dificuldade em averiguar caso informações estejam erradas ou a ficha esteja mal feita — afinal, há regras estabelecidas para isso. Isto é um problema para a classe bibliotecária, uma vez que os profissionais devem ser fiscalizados pelo Conselho Regional de Biblioteconomia, e ele dependeria da intermediação da editora ou da agência catalogadora (como a Câmara Brasileira de Livro, que oferece o serviço) para fazer seu trabalho.

A própria existência da ficha catalográfica demandaria, hipoteticamente, que os Conselhos de Biblioteconomia se ativessem às publicações nacionais para averiguação: algum erro gritante ou frequente talvez pudesse ser interpretado como “inobservância dos ditames da ciência e da técnica“, e acarretariam penalidades. Ou seja: a existência da ficha catalográfica exigiria ainda mais dos Conselhos, que já são sobrecarregados em suas fiscalizações, uma vez que a catalogação é de responsabilidade exclusiva do bibliotecário, e se toda ficha catalográfica deve ser produzida por um bibliotecário, então toda má ficha catalográfica deveria ser investigada pelo Conselho.

Desobediência às regras da ABNT

As regras da ABNT são de uso voluntário. Isto significa que as normas de documentação (como as de referência e de apresentação de trabalho acadêmico, por exemplo) devem ser seguidas de acordo com as expectativas dos avaliadores — inclusive, diversas são as instituições que usam uma versão adaptada das normas de documentação da ABNT.

Desta forma, é estabelecido na norma para apresentação de livros e folhetos o local a ser publicada a ficha catalográfica. Contudo, e compreensivelmente, as editoras prezam mais o design e o layout de suas publicações do que regras não obrigatórias. Um exemplo deste tipo de editora foi a Cosac Naify, que publicava os dados de catalogação na publicação nas últimas páginas de suas obras — e não no verso da folha de rosto. Havia prejuízo nesta desobediência? Nenhum.

Mesmo que largamente ignorada pela indústria editorial nacional, esta inobservância não causa prejuízos: os catálogos de bibliotecas continuam sendo alimentados, o mercado livreiro continua movimentando dinheiro, os leitores continuam desfrutando do conteúdo impresso.

Contudo, cabe um questionamento: não poderíamos, então, junto com o mercado editorial, propor uma solução que fosse útil de fato para todos — aos produtores, aos comerciantes e aos bibliotecários? Veremos mais disso na última seção. Porém, antes, é necessário discutir o motivo mais importante para a extinção das fichas catalográficas.

As fichas inúteis

A intenção aqui não é discutir a História, ou desmerecer a importância das fichas catalográficas em bibliotecas. Sem elas dificilmente teríamos a Biblioteconomia que temos hoje — a história da catalogação é rica e nos ajuda a compreender a nossa civilização, o fazer ciência através do tempo, e as diferentes formas de popularização do conhecimento.

Contudo, em 2016, é necessário dizer um basta.

Fichas catalográficas em bibliotecas já foram importantes — mas agora há catálogos online. A existência de bibliotecas sem catálogo informatizado, seja na internet ou em instalações locais, não pode ser um motivo para a defesa das fichas impressas: ela deve ser um libelo à democratização do acesso à tecnologia. Se há uma biblioteca no país sem catálogo informatizado, é porque precisamos lutar mais, mais forte e melhor para qualificarmos nosso trabalho.

Mesmo para quem não atua profundamente no processamento técnico as mudanças são perceptíveis: o próximo código de catalogação, o RDA, e os requisitos funcionais que vêm a rebote, são pensados para utilizarmos de forma mais racional a tecnologia disponível: links lógicos entre as obras relacionadas e catalogar para acessar (e não para armazenar) são o mote das novidades. Inclusive, cabe a pergunta: quantos novos bibliotecários hoje aprendem a catalogar pensando em fichas catalográficas? Quantos aprendem sobre fichas catalográficas e usam este conhecimento apenas para vender o serviço de manufatura das mesmas para editores e autores? Quantos sistemas de geração automático de ficha catalográfica estão disponíveis gratuitamente na internet?

Estas dúvidas nos levam ao verdadeiro problema: quem utiliza as informações da catalogação na publicação?

É possível que leitores? Bem… é possível que apenas os bibliófilos ou mais afeitos às suas coleções privadas tenham notado a existência das tais fichas. Já os vendedores podem utilizá-las para manter seu catálogo — mas também podem optar por descrever os itens de forma mais superficial e ágil, com as informações de capa e folha de rosto. Para os bibliotecários, enfim, as próprias regras atuais de catalogação afirmam que a folha de rosto é a fonte de informação principal, e, só depois, devem ser usadas as outras partes da obra. Há, inclusive, aqueles bibliotecários que verificam fichas catalográficas nos livros apenas para caçar erros e se sentirem intelectualmente vaidosos em relação a seus colegas…

Se há livros publicados com fichas não assinadas (o que impede a fiscalização da qualidade do serviço dos bibliotecários) e há fichas erradas (seja por falta de conhecimento das formas de apresentação da ficha, seja por erro de catalogação), para que servem as fichas publicadas junto aos livros?

Uma proposta de avanço?

A catalogação na publicação é um fato editorial. Qualquer alteração que vier a ser proposta sobre este hábito levará anos para concretização.

Mas outras alternativas podem existir, mais úteis para todos os atores envolvidos.

O Registro Bibliográfico Universal é um sonho antigo e que está sempre longe da concretude, por mais que os bibliotecários invistam em formatos de colaboração. Seja por questões culturais (de centralização capenga por agências catalogadoras), de entrada de dados (que voltam a ser discutidas através do RDA/FRBR) ou diferenças tecnológicas (como mencionado acima), há um problema para que os dados sobre a bibliografia nacional (quem dirá internacional) estejam acessíveis de forma rápida e correta.

O catálogo da Biblioteca Nacional (BN) é atualizado conforme é feito o depósito legal — previsto em lei, mas que dificilmente é seguido à risca pelas editoras. E mesmo que fosse seguido, nos falta fôlego — humano e de armazenamento — para tratar a imensidão documental gerada no país. A possibilidade de usar no seu catálogo os dados fornecidos (eletronicamente) para atribuição de ISBN também é descartada: alguns editores solicitam os números, mas não os publicam, o que acarreta em números inválidos.

Uma possibilidade de agilizar o processo seria o envio dos metadados dos livros publicados, em formato eletrônico, pelas editoras à BN (ou a uma plataforma própria, enfim): uma base de dados atualizada em tempo real, mesmo que contivesse informações não conferidas. Afinal de contas, estes seriam os mesmos dados que hoje são publicados em fichas catalográficas (assinadas ou não) e que obedecem (ou não) às regras vigentes. Ainda, se são de fato bibliotecários que geram os dados de catalogação na publicação, eles próprios alimentariam estes registros.

A conferência destes dados, contudo, poderia ser validada pela BN conforme fossem processados os itens do depósito legal: além de agilizar a transmissão (e cópia) dos metadados das obras nacionais, o processo ainda poderia ser útil para avaliação do ritmo do depósito legal — “quantas obras foram publicadas, mas não foram depositadas (ou não foram processadas por falta de recurso)?”

Para livreiros, a existência de registros digitais de fácil importação poderia agilizar a gestão de estoques: software livreiro e software do produtor falam da mesma coisa, e a atualização de uma loja virtual se dá praticamente com um clique.

Para bibliotecas, sobraria tempo: a pré-catalogação seria agilizada e os livros iriam parar mais rápido na mão dos leitores — o acervo iria para as prateleiras, e não ficaria temporadas aguardando o aval do setor de processamento técnico. Claro: a catalogação em  bibliotecas ainda seria (e será) necessária, mesmo que com outro ritmo: ela seria preocupação de bibliotecas mais especializadas, que necessitam de aprofundamento do nível de descrição e indexação. Bibliotecas públicas municipais e escolares, no entanto, poderiam dedicar o tempo hoje usado para processamento técnico em desenvolvimento de serviços de dinamização, de referência e de gestão.

As bibliografias universais talvez sejam uma utopia da Biblioteconomia e Documentação. De qualquer forma, ainda é sobre ela que se pensa quando se discute a catalogação colaborativa e formatos de intercâmbio de registros bibliográficos. O fim das fichas catalográficas — e a otimização do trabalho técnico em bibliotecas — passa diretamente pela aproximação do setor editorial. O fim das fichas catalográficas, e a criação de uma bibliografia nacional automatizada (mesmo que pendente de revisão pós-depósito legal) trará mais tempo para os bibliotecários, livros mais rápido para as estantes e serviços mais diversificados para os usuários.

Agradeço à minha amiga e colega Lígia Freitas pela leitura do rascunho deste texto.

9 thoughts on “Pelo fim das fichas catalográficas

  1. Gustavo

    Legal a discussão. Parabens.

  2. Rosemere

    Sem querer ser “jurássica”, mas já sendo…quando falta energia elétrica faz como?

    • FernandoP

      Bom dia, Rosemere! Acho que podemos pegar inspiração de outros serviços — como fazem os bancos, os supermercados, os restaurantes, as repartições públicas quando há queda de luz?

  3. Maristella Soares dos Santos

    Quando falo esse tipo de coisa sinto que sou taxada de louca… As pessoas olham como quem diz “Tá louca? Como assim extinguir algo que o bibliotecário tem que fazer?”… Gostaria de saber sua opinião em relação a fichas catalográficas em trabalhos acadêmicos (TCC, dissertações e teses).. Parabéns pelo conteúdo!

    • FernandoP

      Obrigado pelo elogio, Maristela! Acho que para trabalhos acadêmicos a ficha é ainda menos necessária: este tipo de trabalho geralmente já vem bastante padronizado quanto às suas identificações: pensa na “natureza” do trabalho acadêmico (tipo, objetivo, instituição e área de concentração), aquela que fica na folha de rosto.

  4. Estou de acordo com este pensamento. Como gestora apresentei a ideia para a equipe e ,em maio , tomou-se uma decisão de colocar um modelo de ficha no site do Sistema Universitário de Bibliotecas da UFBA.
    Como é obrigatória a apresentação da ficha catalográfica nas trabalhos pesquisas e estudos finais dos cursos ,estudante de graduação e pós graduação solicitavam ajuda.Tinhamos um Bibliotecário só para atende-los. Hoje , colocamos o modelo no site e aos poucos os alunos estão se acostumando .
    Entretanto, a Editora da UFBA continumos a atender.
    Lidia Brandão Toutain

  5. Angelica

    Ficha catalográfica é lei, não é opção.
    Para quem não conhece está na lei do livro.
    LEI Nº 10.753, DE 30 DE OUTUBRO DE 2003

    • FernandoP

      Obrigado pela lembrança, Angelica! Mas, voltando ao tema do texto: a provocação permanece — a ficha catalográfica é necessária (independentemente da existência da lei) ou não?

  6. Caro Fernando,

    As fichas catalográficas ainda são muito importantes para as bibliotecas que possuem menos recursos financeiros e humanos. Tenho observado uma melhora perceptível na qualidade das mesmas. Acredito que as editoras tem buscado bibliotecários para essa tarefa.

    A presença da ficha catalográfica agiliza o processo de catalogação uma vez que as editoras não respeitam as normas da ABNT para livros e lançam obras em que às vezes até o título é confuso. Além disso, a catalogação na fonte permite ao bibliotecário incluir na ficha catalográfica dados que ficarão de fora da fonte principal de informação (folha de rosto), seja por critério ou desinformação do editor.

    Aproveito para compartilhar o site da eDOC BRASIL, uma empresa criada por bibliotecários com o intuito de colaborar com editores, autores e alunos nas publicações de suas obras e TCCs. O link é http://www.edocbrasil.com.br/servicos/ficha-catalografica/

    Abração

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