Formação continuada de bibliotecários na França

Este texto pretende abrir uma nova seção do blog: além de relatos profissionais e provocações teóricas, pretendo comentar alguns artigos publicados em revistas científicas da área. Os comentários, de cunho pessoal e que em muito refletirão minhas próprias experiências e ideias, têm intenção de, primeiramente, proporcionar (ao autor do blog) uma leitura atenta, cuidadosa e ponderada dos textos. Secundariamente, espera-se criar um ambiente para a discussão das ideias do texto, sua conexão com outros documentos e com outras áreas do conhecimento — mesmo que de forma bastante solitária. Quem quiser participar, basta ler o texto original (ou os comentários feitos sobre o texto original), e, enfim, participar.

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BERTRAND, Anne-Marie. La formation des bibliothécaires. Bulletin des bibliothèques de France, Paris, n. 5, 2007.

Anne-Marie Bertrand, na época da publicação do texto “A formação de bibliotecários: forçadamente contínua”, em 2007, era diretora da Enssib, escola nacional de biblioteconomia e ciências da informação do governo francês. Cabe ressaltar que esta entidade tem a função de formar bibliotecários naquele país (através de mestrados e doutorados; o que já difere bastante da realidade brasileira), além de proporcionar sua formação contínua — não apenas para pessoas que querem partir para outras áreas dentro da Biblioteconomia, mas também para quem está chegando a novos postos. Isto é: na França, funcionários públicos que alcançam postos de direção, por exemplo, são obrigados a participar de cursos de curta duração para se prepararem para a nova função. E apresentar esta realidade é a intenção do texto ao comentar a porosidade entre a educação formal dos bibliotecários e o aprendizado durante as horas de trabalho.

Bertrand comenta, inicialmente, que há uma tendência, ao menos na França, dos usuários exigirem um tratamento de “clientela” por parte das bibliotecas públicas. Ela explica que além da cultura profissional da área já ser baseada em valores históricos (como compartilhamento, igualdade de acesso e responsabilidade intelectual), os usuários de lá agora desejam ser vistos como “clientes”. Este fato obriga as bibliotecas a atualizar seu jargão e ultrapassar atividades antes consideradas tabus, como  o privilegiamento de uma administração mais científica das bibliotecas.

Desde já podemos perceber diferenças no modelo de usuário/cliente europeu e brasileiro. Mesmo sem dados concretos, e apenas através da observação empírica, é inevitável dizer que, com exceções, o uso de bibliotecas públicas no Brasil desde a popularização da internet caiu: as pessoas agora têm Google e Wikipedia e os acervos muitas vezes não são atualizados para permanecerem interessantes o suficiente. Os nossos usuários sequer ousam se ver como seres com direitos à uma biblioteca pública: há quem ainda se sinta grato pela existência de um prédio na cidade que permita tanto o uso de internet sem fio e quanto ofereça um teto para que se fuja do sol ou da chuva ou que permita que se passe algum tempo sem fazer nada (nem precisar consumir nada) — privilégios que deveriam ser um direito. Contudo, na França, suponho, se o público já se vê como um cliente — isto é, que solicita ser tratado como cliente de um serviço —, é porque a sua percepção de biblioteca pública é bastante díspar da percepção que os brasileiros têm de suas bibliotecas. Se o direito de acesso já é garantido lá, então o próximo passo seria a exigência de que os serviços ligados a este direito funcionem de forma clara, menos burocrática e mais fácil. (Ainda podemos problematizar a noção de “cliente” para um aparato social/cultural, mas deixemos isso para depois…)

Relevemos, contudo, a diferença de auto-percepção dos usuários/clientes: o texto começa a discutir de forma ampla como se dá a formação e a transmissão do conhecimento bibliotecário. A autora, por exemplo, cita a cultura profissional (isto é, o fazer local e universal; da biblioteca-onde-estamos e do o-que-se-espera-de-bibliotecários) e a formação profissional (inicial e contínua; formais) como os dois fatores no ensino e na profissionalização desta classe. Bertrand, então, afirma: “É trabalhando que a pessoa se torna profissional, da mesma forma que é refletindo sobre suas práticas […] que avançamos na profissionalização.” Podemos concluir que, para a autora, aprender um trabalho e trabalhar nesta área são coisas diferentes e que promovem coisas diferentes: é o vai-e-vem entre conteúdo aprendido em instituições para este fim e as experiências e conhecimentos obtidos no fazer profissional que permite (ou deveria permitir) a formação de um profissional.

O texto, mais adiante, ainda abre espaço para mais comparações com a realidade brasileira, especialmente em relação ao trabalho público. De acordo com a autora, até 1991-92, ou seja, até a reforma estatutária, que regia o trabalho público, a carreira pública na França era móvel até certo ponto, e focada em uma hierarquia bem definida de cargos. Contudo, a partir desta reforma, o avanço na carreira se dá mais através de funções do que de cargos. Isto é: para se progredir na carreira, é esperado que o profissional execute outras funções, adquira outras responsabilidades, trabalhe em outras instiuições… enfim, exerça diferentes funções públicas. Esta mobilidade atrelada a responsabilidades é benéfica, mas também exige investimentos: por este motivo, o governo, através do Enssib, oferece cursos de formação contínua para pessoas chegadas em novos postos — por exemplo, um ciclo de formação de 15 dias para “responsáveis por acervos patrimoniais”, visando a preparar os profissionais ao novo cargo.

Diferentemente do Brasil, onde o incentivo à formação continuada, ao menos no serviço público, é mais focado no aumento salarial do que no desenvolvimento de um serviço público melhor, na França estas formações, obrigatórias, são pensadas para que a prática dos novos gestores se dê de forma atualizada e melhorada. Este tipo de formação, portanto, está de acordo com o sistema de progressão de carreira francês: qualifica-se o profissional, pois dele é esperado o engajamento em diferentes locais, serviços e funções. Cabe ressaltar que, por serem diferentes, os sistemas franceses e brasileiros têm seus prós e contras específicos, e que se a formação continuada se dá mais por motivos financeiros pessoais no Brasil é porque há um contexto histórico-social bastante diverso do contexto francês.

Por fim, após comentar rapidamente algumas das dificuldades do sistema de formação contínuo na França, a autora termina com uma frase que demonstra não apenas a importância, mas também a porosidade da relação formação-experiência: “Se a formação continuada é o continuum da formação inicial e da experiência profissional, ela não pode ser substituída nem uma nem por outra.” Isto é: ambas são igualmente necessárias, uma vez que nenhuma prepara sozinha profissionais completos para o mercado de trabalho.