Manifesto pelos museus, de Orhan Pamuk

Este manifesto foi escrito por Orhan Pamuk e a versão aqui traduzida foi publicada originalmente em The Art Newspaper.

Apesar de fugir um pouco do escopo do blog, a opção por se traduzir este texto se deu justamente por procurar pensar pontos de tangência entre a Museologia e a Biblioteconomia — especialmente no que tange as bibliotecas que temos e as bibliotecas que queremos.

O texto reforça a oposição da “instituição nacional,” que tem foco nas narrativas e interesses da “nação,” às instituições focadas em pessoas e em indivíduos, que usam como força motriz as vidas e histórias pessoais dos indivíduos que compõem esta mesma nação. No caso das bibliotecas, talvez seja possível extrapolar esta provocação em relação à “biblioteca pública,” que existe para um público amorfo ou hiperabrangente, e às necessidades individuais ou grupos de interesses que compõe a comunidade a ser acolhida.

Ou seja: a intenção do Manifesto é trazer o foco da atenção não à “Cultura,” enquanto fenômeno de um grupo de pessoas, e sim às “Pessoas” ou “Indivíduos” que participam nesta cultura.

Ainda, foram adicionados links a alguns trechos do texto para melhorar a contextualização ao leitor brasileiro.

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Orhan Pamuk, escritor turco e vencedor do Prêmio Nobel que fundou o Museu da Inocência em Istambul, foi um dos palestrantes na conferência do International Council of Museums (ICOM) em Milão esta semana [3 a 9 de julho de 2016]. Ele trouxe a seguinte mensagem, publicada pela primeira vez pelo jornal italiano La Repubblica, através de um link de vídeo. Ele ressaltou que no futuro precisaremos de “museus pequenos e econômicos que se refiram à nossa humanidade.”

Pamuk disse: “Todos os museus são verdadeiros tesouros da humanidade, mas eu sou contra o uso destas instituições preciosas e monumentais como modelo para as instituições vindouras. Museus deveriam explorar e descobrir a população como um todo e a humanidade do novo e moderno homem que emerge das economias em crescimento dos países não-ocidentais. Eu dirijo este manifesto em particular a museus asiáticos que estão experimentando um período de crescimento sem precedentes.

O objetivo dos grandes museus financiados pelo Estado é representar um Estado e este não é um objetivo nem bom nem inocente. Aqui estão minhas propostas para um novo museu, alguns temas sobre os quais devemos refletir agora mais do que nunca.

Os grandes museus nacionais como o Louvre e o Hermitage assumiram a forma de instituições turísticas com a abertura de palácios reais e imperiais ao público. Estas mesmas instituições, hoje símbolos nacionais, apresentam a narrativa da nação, História com agá maiúsculo, como muito mais importante do que as histórias dos indivíduos. Isto é vergonhoso, uma vez que histórias individuais se prestam muito mais a retratar a profundidade da nossa humanidade.

A segunda reflexão que quero introduzir é que as transições de palácios para museus nacionais e do épico ao romance são processos paralelos. O épico é como um palácio: ele fala dos gestos heróicos dos reis que nele habitaram. Museus nacionais deveriam ser como romances, mas este não é o caso.

Terceiro: não precisamos de mais museus que tentam construir uma narrativa histórica da nossa sociedade e comunidade como a narrativa de uma facção, nação ou Estado. Todos sabemos que histórias ordinárias e cotidianas são mais ricas, mais humanas e, sobretudo, mais alegres.

Quarto: demonstrar a riqueza da história e cultura chinesa, indiana, mexicana, iraniana ou turca está fora de cogitação. É algo que realmente precisa ser feito, e não é difícil de fazê-lo. O grande desafio é usar museus para contar com o mesmo brilhantismo, poder e profundidade as histórias dos seres humanos vivendo nestes países.

Quinto: a medida de sucesso de um museu não deveria ser sua habilidade em representar um Estado, nação, sociedade ou história particular. Ela deveria ser sua capacidade de revelar a humanidade de indivíduos. Precisamos julgar museus quanto a este critério.

Sexto: é imperativo que museus fiquem menores, mais orientados a indivíduos e mais econômicos. Este é o único meio pelo qual eles poderiam contar histórias em uma escala humana. Os grandes museus nos convidam a esquecer nossa humanidade e aceitar o Estado e suas massas humanas. É por isso que existem milhões, fora do Ocidente, que têm medo de museus. É por isso que museus são associados a governos.

Sétimo: o objetivo dos museus hoje e no futuro não deve ser o de representar o Estado, mas, sim, de recriar o mundo de pessoas individuais, os mesmos seres humanos que sofreram sob pressões tirânicas de centenas de anos.

Oitavo: os recursos direcionados aos monumentais e simbólicos grandes museus deveriam ser redirecionados aos museus pequenos que contam histórias de indivíduos. Estes recursos deveriam também ser usados para apoiar e encorajar pessoas a transformarem suas pequenas casas e pequenas histórias em lugares de narrativa.

Nono: se objetos não são desenraizados de seus contextos e ruas, e sim situados com cuidado em seus lugares naturais, eles podem ter a oportunidade de contar suas próprias histórias independentemente. Precisamos de museus modestos que possam honrar as ruas, casas e  os comércios ao seu redor e transformá-los em momentos de suas narrativas.

Em resumo, o futuro dos museus começa em casa. A situação é bastante simples: estamos acostumados a ter épicos, mas precisamos de romances. Em museus estamos acostumados à representação, mas o que precisamos é de expressão. Estamos acostumados a ter monumentos, mas precisamos é de casas.

Em museus temos História, mas o que precisamos é de histórias*. Em museus, temos nações, mas do que precisamos é pessoas. Tínhamos grupos e facções em museus, mas precisamos é de indivíduos. Tínhamos grandes e custosos museus e continuaremos a tê-los ainda mais, especialmente na Ásia, onde dinheiro governamental está financiando estes museus. Apesar de que o que precisamos são museus pequenos e econômicos que se refiram à nossa humanidade.”

Este artigo apareceu pela primeira vez no La Repubblica

O Art Newspaper é um parceiro de mídia da conferência do International Council of Museums em Milão, até 9 de julho.

* NT: No original, o autor opõe “History” a “Story,” sendo, em inglês, o segundo mais relacionado à histórias narrativas de ficção do que o relato histórico e acadêmico. Algumas pessoas usam o termo “estória” para se referir ao segundo em português.

Créditos da imagem: "aadiyat-3" por Hoss Gifford (flickr), 2009.

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