Manifesto por uma biblioteconomia alternativa

Nos idos anos de 2010, eu e meus colegas Lilly e Derbi, todos nós ainda estudantes de Biblioteconomia, publicamos o Manifesto por uma Biblioteconomia Alternativa. Ele foi pensado especialmente para o XII EREBD Sul, que ocorreria na nossa cidade.

O texto foi recentemente recuperado por outra colega, o que provocou uma enxurrada de memórias.

Por ainda acreditar no que foi escrito, e por talvez estar precisando de uma nova Desordem, reproduzo aqui o Manifesto original.

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Estatuto da Biblioteconomia Alternativa

Versão: Beta Perpétuo
por Fernando P., Célvio Derbi e Lígia ‘lilly’, 2010

Nós estudantes de biblioteconomia, a partir deste XII EREBD SUL, buscaremos e lutaremos.

Artigo I
Fica decretado que as regras abaixo devem ser cogitadas — e não cegamente obedecidas.

Artigo II
Fica decretado que nunca haverá estabilidade, por mais sedutora que ela seja. Por mais prazerosa que ela pareça. Por mais segurança que ela transmita. Sempre que tal calamidade se aproximar, o Bibliotecário deverá insurgir-se contra a Ordem estabelecida, questionando-a e instaurando novamente a instabilidade.

Artigo III
Fica decretado que cada nova Ordem exige uma nova Desordem, e que cada nova Desordem exige o questionamento meticuloso: “Como eu posso melhorar o que eu já tenho?”. Cabe ao Bibliotecário fomentar a Desordem e alimentar as outras pessoas com informações que possibilitem mudanças.

Artigo IV
Fica decretado que a Biblioteconomia não é uma profissão, não é um matrimônio e não é um sacerdócio. Biblioteconomia é, agora, um estado de espírito e uma forma de ser.

Artigo V
Fica decretado que o Bibliotecário não é puramente suas ferramentas; mas, sim, que ele faz suas ferramentas. Não há CDU, CDD, AACR2 que valha a pena decorar se ela não satisfizer as necessidades da nova Desordem. O insumo do Bibliotecário é a Informação, encontrável, disseminável e debatível.

Artigo VI
Fica decretado que o único inimigo do Bibliotecário é ele próprio. Preguiça, comodismo, falta de vontade e falta de esperança são incompatíveis com o fazer bibliotecário.

Artigo VII
Fica decretado o repúdio à expressão “Minha biblioteca” pelo bibliotecário ou Estagiário de Biblioteconomia ao se referirem aos seus locais de trabalho e de estudo. Cada biblioteca é dos seus usuários, independentemente das crenças dos seus gerentes.

Artigo VIII
Fica decretado que o Bibliotecário, além de Bibliotecário, também será Usuário durante o período exato de sua existência.

Artigo IX
Fica decretado que o Bibliotecário deve ser tão criativo quanto o poeta. Que ele deve criar soluções quando elas estiverem indisponíveis, e que ele deve conhecer as soluções que seus colegas encontraram. A Biblioteca só receberá investimentos se ela tiver visibilidade; ela só terá visibilidade se funcionar direito; e ela só funcionará direito se o bibliotecário lembrar que ele também é Usuário.

Artigo X
Fica decretado que esta não é a primeira Biblioteconomia Alternativa, e nem será a última. A cada vez que os Bibliotecários estiverem satisfeitos, um novo levante deve ocorrer, considerando novas necessidades e novas esperanças.

Publique-se e cumpra-se.

Porto Alegre, 24 de abril de 2010.
Imagem destacada: Bansky.