Paz em nosso tempo

Cory Doctorow é um jornalista, escritor, ativista digital e editor da BoingBoing. No texto abaixo, publicado originalmente na Locus Mag, ele discute o impasse gerado pelo livro eletrônico entre editores, vendedores, autores e bibliotecas. Ainda, o autor argumenta que se as bibliotecas fazem parte do problema, elas também fazem parte da sua solução.

Como em outras traduções, mantive os links originais e adicionei novos, a fim de facilitar a contextualização por leitores mais curiosos.

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Cory Doctorow: Paz em nosso tempo

E-books são agentes de mudança, mas não da forma que todos esperávamos que fossem ser. Longe de substituir a mídia impressa, as vendas de e-books estagnaram em cerca de menos de um quarto da venda de impressos e mostram todos os sinais de permanecerem assim, ou em declínio, no futuro previsível.

Mas e-books continuam sendo uma fonte amarga de controvérsia que afasta as editoras de dois de seus aliados mais potencialmente úteis: grupos de escritores e bibliotecas.

Abaixo, apresento dois exercícios hipotéticos sobre como bibliotecas e grupos de escritores poderiam encontrar uma causa comum com as Grande Cinco editoras, usando projetos tecnológicos que poderiam melhorar as coisas para escritores, leitores, literatura e cultura.

Primeiramente, bibliotecas. Bibliotecas estão compreensivelmente habituadas aos altos preços a que se espera que elas paguem por e-books — cerca de 500% mais do que você e eu pagamos nos principais vendedores online. Para piorar, a HarperCollins faz com que bibliotecas deletem quaisquer e-books que tenham circulado 26 vezes, usando os seguintes argumentos:

  1. Seus livros impressos são supostamente tão mal encadernados que se desintegram após 26 leituras (isto não é verdade); e
  2. Este problema na robustez do livro físico é uma funcionalidade e não um problema, e deveria ser importado para o mundo digital.

Bibliotecas tentaram expor editoras para que oferecessem opções melhores, através da campanha Fair Pric­ing for Libraries [Preços Justos para Bibliotecas, em inglês], fairpricingforlibraries.org. Ela teve algum sucesso limitado, como com a Random Penguin, a maior das Grande Cinco, oferecendo preços “flexíveis” que são uma melhora substancial, mas ainda longe de perfeitos.

A luta das bibliotecas é prejudicada por falta de poder de influência. Usuários de bibliotecas querem e-books, editoras são a única fonte dos e-books que os usuários querem, e bibliotecas têm que dar o que seus usuários querem.

Bibliotecas poderiam ter mais influência. Editoras têm um problema muito maior do que a precificação de e-books: a dominância da Amazon na venda de e-books. Ainda pior: a Amazon também é uma editora, uma que compete cabeça-a-cabeça com as Grande Cinco, perseguindo os mesmos autores para que escrevam os mesmos livros para os mesmos leitores.

A Amazon sabe, em tempo real, como os livros das editoras estão se saindo. Ela sabe quem os está comprando, onde estão sendo comprados, onde eles estão sendo lidos, o que procuraram antes de comprá-los, quais outros livros compram ao mesmo tempo, quais livros compram antes e depois, se leem os livros, quão rápido os leem e se terminam a leitura.

A Amazon não divulga quase nenhum destes dados às editoras e as informações que são de fato divulgadas às editoras (dados de venda dos livros das próprias editoras, pulverizados, sem associações mineráveis) o são após 30, 90 ou 180 dias. Editoras tentam preencher as lacunas e compram seus dados dos livreiros que sobram, assinando bases de dado de pontos de venda e que têm relevância limitada quanto à performance de e-books.

Existe apenas uma base de dados sobre e-books que é remotamente comparáveis aos dados minerados pela Amazon para se manter à frente dos editores: dados de circulação de e-books de bibliotecas públicas. Estes dados não são tão aprofundados quanto os da Ama­zon — ainda bem, porque é assustador e terrível que a Amazon conheça seus hábitos de leitura com toda esta profundidade, e é correto e adequado que bibliotecas tenham se recusado a começar este tipo de vigilância sobre a circulação de seus próprios e-books.

Atualmente estes dados estão todos presos pela Overdrive, a empresa que as editoras insistem que as bibliotecas utilizem como plataforma de empréstimo para e-books.

Aqui está meu exercício hipotético: e se bibliotecas clonassem o Overdrive com um código-fonte livre e aberto, que qualquer biblioteca do mundo pudesse usar, e que para o qual bibliotecas pudessem pagar prestadores de serviço independentes para conserto e melhoria? Ao invés de pagar uma taxa anual para a Overdrive, que paga pelo software e pelos dividendos dos investidores da Overdrive, as bibliotecas poderiam adotar o modelo que fez o Drupal e o WordPress tão bem sucedidos: pagar prestadores de serviços para serviços e manutenção, e compartilhar coletivamente os benefícios das melhorias incrementais conseguidas com estas transações.

A abertura da plataforma é essencial porque é isso que permite que as bibliotecas declarem que são capazes de coletar estatísticas agregadas sobre uso e circulação que sejam suficientemente distanciadas a ponto de não comprometer a privacidade dos usuários, mas ainda são cheias dos insights de que as editores precisam para competir com a Amazon, seu maior e melhor frenemy, editora e vendedor em um só.

O quid pro quo desta configuração é que os editores precisariam parar de maltratar as bibliotecas quanto aos e-books. É uma situação ganha-ganha porque as bibliotecas usarão justamente este dinheiro extra para comprar mais e-books e os editores vão ganhar inteligência de mercado  contestável [“actionable market intelligence” no original] que eles podem usar para vender mais e-books e os escritores terão um ecossistema editorial menos dependentes de uma vendedor único, impiedoso e gigante.

É indispensável que asseguremos que estas negociações beneficiem escritores, porque e-books também são uma batata quente na dinâmica escritor-editor. A Author’s Guild tem se posicionado publicamente exigindo que os escritores recebam 50% líquido da venda de e-books como uma negociação padrão – o dobro da taxa atual. Editores não levaram este pedido muito a sério por enquanto.

Contudo, existe uma saída para triplicar a participação do autor nos royalties de e-books sem custar nada para os editores e, com isso, retirar um pouco da dominância de mercado da Amazon.

Esta saída é permitir aos autores que vendam seus próprios livros.

A negociação padrão é mais ou menos assim: vendedores ganham 30% do preço bruto do livro e escritores recebem 25% do preço líquido (17.5% do bruto) como royalty. Se os escritores fossem os vendedores, seus royalties subiriam de 17.5% do bruto para 47.5% do bruto para os livros que eles vendessem.

Como isso funcionaria? Grupos como o Authors Guild, e até mesmo seu rival, Authors Alliance (um grupo que pede regras mais liberas para o copyright e em cujo conselho consultivo eu participo), ou até mesmo ambos unidos (sendo esta uma das poucas áreas em que ambos podem concordar), poderiam juntar uma subvenção de uma fundação para criar uma plataforma de venda de e-books que os autores pudessem hospedar eles mesmos, plugar em seus sites do WordPress e do Drupal, ou incorporar como um widget no Facebook ou Tumblr. Esta plataforma permitiria aos autores vender seus próprios livros e teria um hub central, “Fair Trade E-books,” no qual leitores poderiam, com uma única busca, encontrar a loja do autor de qualquer livro que estivessem procurando.

Autores que vendem seus próprios e-books oferecem duas coisas que a Amazon não pode oferecer. A primeira é a certeza de que quando o leitor compra dos autores, ele ajuda seus autores preferidos a triplicar seus ganhos, e sem gastar um centavo a mais. A segunda é a possibilidade de comprar livros de uma única loja, independentemente de localização geográfica.

Hoje, lectures que tentam comprar livros em inglês fora de territórios de língua inglesa, ou mesmo em territórios nos quais os autores não têm seus direitos vendidos, são simplesmente negados pela Amazon e seus competidores. Tente comprar um dos meus e-books em inglês na Suécia (um país onde a maior parte das pessoas fala inglês melhor do que eu), e é provável que te dirão que tuas coroas suecas não vão servir. A Amazon não consegue identificar quais e-books de cada editora são os corretos para vender lá, e o prejuízo se algo der errado é maior do que o lucro daquela venda perdida, e, portanto, os clientes são recusados.

Mas os autores sabem exatamente quais editores têm o direito de seus livros em cada território. Com a configuração de uma tela de preferências simples, os autores podem separar as remessas de seus livros para o editor certo em cada venda, e assim servir a qualquer cliente — mesmo aqueles comprando em territórios sem editores — se você vendeu diretos nos EUA/Canadá, mas não no Reino Unido, você pode vender a clientes do Reino Unido e embolsar 100% da receita, ao menos até você achar um editor do Reino Unido. E, ainda, você pode usar o dinheiro das vendas do Reino Unido como um argumento para fechar negócio com um editor inglês.

Como a versão hipotética do Open Overdrive para bibliotecas, a Amazon Federada dos autores se beneficiaria da ação coletiva. Se um escritores contrata um desenvolvedor para adicionar um serviço na sua loja, todos os escritores no mundo poderiam usar este serviço.

Os Grande Cinco precisariam participar da negociação, é claro: eles precisariam oferecer contas de vendedor aos seus próprios autores, que, por sua vez, precisariam de algum investimento em contabilidade. Mas como este serviço é nato-digital, as ferramentas de contabilidade poderiam ser construídas dentro do software de venda, desenvolvido com a consultoria das Grande Cinco, que se plugasse diretamente nos seus sistemas de auditoria.

As Grande Cinco tiveram negócios duramente barganhados com a Ama­zon  para impedir vendedores tenham preços mais baratos que os da Amazon, e qualquer tentativa em oferecer e-books diretamente de seus sites gera grandes problemas com a Amazon e com outros vendedores. Mas seria difícil para qualquer plataforma de e-books questionar que os autores vendessem a seus próprios leitores de seus próprios sites.

A maioria dos autores precisa de editores: a capacidade de escrever um livro não é um bom preditor da capacidade de publicá-lo. Bibliotecas também precisam de editores. O acidente histórico que colocou escritores, bibliotecas e editores em lados opostos na guerra dos e-book é um mau negócio para todos.

Mas há uma pegadinha quanto a estas soluções: elas são incompatíveis com DRM. O maior custo operacional da Overdrive e da Amazon no negócio de e-book é resolver as dores de cabeça causadas pelos seus DRM. Plataformas cooperativas não têm orçamento para esta demanda.

Em um mundo racional, este seria um fácil argumento para vencer. Qualquer DRM é falho, qualquer DRM de e-book também o é em dobro. Simplesmente baixe o Calibre e siga um tutorial simples da internet e vocês poderá remover o DRM de qualquer e-book que você tenha comprado. Tudo o que o DRM faz é punir leitores honestos. Os desonestos não têm nenhum impedimento sério em fazer o que quiserem com seus e-books.

De qualquer forma, as Grande Cinco (com a notável excessão da Tor, o selo de ficção-científica da Macmillan, que é completamente livre de DRM) exigem os DRM como um artigo de fé inabalável.

Talvez a perspectiva de uma paz duradoura entre autores e bibliotecas  — e uma competição firme com a Amazon — vai os convenecer.

Ilustração: Alice Donovan Rouse, StockSnap.io, 2017.

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