O Cartão da biblioteca: novas funções das bibliotecas públicas

No ensejo da Agenda 2030 da ONU, traduzo uma reportagem publicada originalmente na edição de março da The Atlantic impressa e online em fevereiro de 2016. O texto reflete um trecho da viagem da autora, Deborah Fallows, pelos Estados Unidos e das novas funções das bibliotecas públicas que ela encontrou por lá.

A tradução, então, tem a intenção de trazer mais exemplos estrangeiros para os bibliotecários e gestores de bibliotecas públicas do Brasil. Também, serve para inspirar estas mesmas pessoas — e quem sabe seus clientes-usuários — a elaborar projetos importantes para suas comunidades.

Além de manter os poucos links do original (especificamente os da chamada, logo após o título), me outorguei a liberdade de complementar algumas palavras-chave do texto com links que acabei pesquisando e que julgo serem úteis para os leitores do Brasil. Especialmente, tentei adicionar ligações para as bibliotecas citadas, para a página de relatórios sobre bibliotecas do Pew Research Center e para alguns projetos citados. Novamente, a intenção é facilitar a vida do leitor, caso tenha interesse em pesquisar mais sobre o assunto.

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O Cartão da biblioteca

Este artigo aparece na edição impressa de março em conjunto com a reportagem de capa “Can America Put Itself Back Together?” [Podem os Estados Unidos se recompor?] — uma soma dos relatos da viagem de James and Deb Fallows de 54,000 milhas através dos EUA em um monomotor. Mais notícias da sua viagem em andamento podem ser encontradas aqui.

Enquanto viajávamos através dos EUA reportando o renascimento de cidades, nós sempre fizemos das bibliotecas locais uma parada inicial. Iríamos a redações de jornais, à câmara do comércio, à prefeitura e à Rua Principal para termos uma introdução à economia, política e preocupações locais. A visita à biblioteca pública revelava seu coração e alma.

A tradicional impressão de bibliotecas enquanto lugares para leitura silenciosa, pesquisa e empréstimo de livros — e de bibliotecárias como silenciadoras — está ultrapassada, uma vez que elas se metamorfosearam em movimentados centros cívicos. Por exemplo, a Deschutes Public Library em Bend, Oregon, agora coopera com dezenas de organizações, desde a AARP (que ajuda pessoas com seus impostos) até a Goodwill (que ensina a escrever currículos). Uma assistente social treina funcionários a guiar conversas sobre uma das questões mais frequentes que as pessoas confiantemente trazem para a biblioteca: Você pode me ajudar a entender como faço pra não estourar meus orçamento de moradia?

Há três áreas em que bibliotecas funcionam como centros vibrantes nas cidades: tecnologia, educação e comunidade.

Tecnologia

Muitas pessoas dependem de bibliotecas para ter acesso a computadores e internet. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center de 2015, mais de um quarto dos americanos que visitaram uma biblioteca pública no ano passado usaram um computador, internet ou conexão WiFi, sendo que o número mais alto de usuários é entre minorias e grupos de baixa renda.

Mais ambiciosamente, bibliotecas também começaram a oferecer “makerspaces” — oficinas compartilhadas que oferecem ferramentas tecnológicas e são desenhadas para facilitar o trabalho colaborativo. Eu recentemente visitei o “makerspace” na biblioteca Martin Luther King Jr. em Washington. Um grupo eclético de amadores, empreededores e uma mãe com seus pré-adolescentes educados em casa aprendiam sobre impressoras 3D, cortadores a laser e dobradores de metal. Benjamin Franklin, que conduziu alguns de seus experimentos com eletricidade em locais públicos da Library Company of Philadelphia, teria com certeza gostado dos “makerspaces” das bibliotecas públicas atuais.

Miguel Figueroa, que dirige o Center for the Future of Libraries at the American Library Association, diz que os “makerspaces” são parte da missão expandida das bibliotecas para serem locais onde pessoas não apenas consomem conhecimento, mas também criam novos conhecimentos.

Educação

Em minhas conversas com bibliotecárias do país, o assunto mais urgente era o da educação das crianças mais jovens dos EUA. Patrick Losinski, o CEO do sistema de bibliotecas metropolitanas de Columbus, Ohio, me contou que quando uma criança de 5 anos entra no jardim de infância, pega um livro e o segura de cabeça pra baixo “você sabe que não existe reading readiness lá.” Ouvi falar de muitos projetos como o Books for Babies [Livros para bebês], dirigido pelo Amigos da Biblioteca na diminuta Winters, California: voluntários revisam anúncios de nascimento e procuram pessoas com carrinhos de bebê, e oferecem a cada novo bebê uma caixa com uma camiseta, um boné, dois livros, e uma inscrição para a biblioteca.

Em Charleston, West Virginia, apesar da perda de investimento recente que diminuiu severamente a equipe da biblioteca, bibliotecárias ainda oferecem material a professoras em todos as 900 milhas quadradas do condado. Em Columbus, Mississippi, a biblioteca dá a estudantes do ensino médio acesso a arquivos da época da Guerra Civil — registros de venda de escravos, casos das cortes de justiça e segredos da comunidade — tornando real a história racial do seu estado. Em Redlands, Califórnia, o programa que mais atrai voluntários são as tutorias de literacia um-a-um para adultos. E muitos adultos usam bibliotecas públicas como seu ponto de acesso a cursos pós-secundários online.

Comunidade

A biblioteca em West Hartford, Connecticut, oferece aulas de conversação de inglês para imigrantes. A biblioteca em Seattle oferece aulas de cidadania. A biblioteca em Duluth, Minnesota, tem um programa de empréstimo de sementes para jardineiros locais. A biblioteca em Washington, D.C., oferece danças de tango nas tardes de sábado. Em bibliotecas, eu já pratiquei yoga e tai chi, beberiquei lattes em cafeterias e assisti Millennials com laptops organizar os escritórios virtuais de suas start-ups em longas mesas de salas de leitura. Bibliotecas servem como âncoras em tempos de angústia: a biblioteca em Ferguson, Missouri, manteve suas portas abertas mesmo quando as escolas estavam fechadas, e bibliotecas em New Jersey se tornaram locais de refúgio após o furacão Sandy.

Se estes parecem ser desvios do papel histórico de bibliotecas como emprestadoras de livros, tenha em mente que, por volta do início do século 20, as primeiras bibliotecas Carnegie tinham boliche, bilhar, piscinas e ginásios.

3 thoughts on “O Cartão da biblioteca: novas funções das bibliotecas públicas

  1. Luís Alberto Meneses de Almeida

    Apreciei os temas e o texto. Só é por vezes é um pouco compreensível para leitores que residem em Portugal. O texto é em português do país irmão de Portugal que é o Brazil.

  2. Luís Alberto Meneses de Almeida

    Usam no texto muitas expressões inglesas, o que é normal. O problema é que nem todas são explicadas e/ou se consegue saber o seu significado depois de lido a frase que diz respeito a cada expressão em inglês.

    • FernandoP

      Obrigado pelos comentários, Luís! Vou revisar em breve a tradução para ver o que pode ser feito para melhorá-la!

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