O fim do livro em papel (mesmo)

Durante a programação da  61. Feira do Livro de Porto Alegre aconteceu um debate entre Marcelo Spalding e Cássio Pantaleoni — “Literatura e suas novas expressões nos meios digitais”. Este relato, então, reunirá os pontos trazidos pelos debatedores.

A mesa iniciou a conversa com o mote das novas tecnologias de narrativas digitais — os e-books, que Marcelo já tratou de criticar, ao menos terminologicamente. Para o jornalista, que defendeu uma tese sobre o assunto, existe uma dificuldade em especificar de qual livro eletrônico as pessoas falam, uma vez que um texto imprimível (ou digitalizável) não oferece a mesma usabilidade de um livro nato-digital. Isto é, a noção de “literatura digital” também deve ser mais bem analisada, uma vez que a leitura de (e o público para) um texto corrido em tela difere de um livro interativo. Para comparar a diferença do texto imprimível e do nativamente digital ele cita a relação entre cinema e teatro filmado: a transposição de um para outro não é imediata, uma vez que a mudança tecnológica exige também uma mudança na forma da expressão dos autores. Na mesma linha de raciocínio, o jornalista comenta que o gênero romance, isto é, a narrativa longa, é uma resposta à mudança tecnológica ocorrida na época da prensa de Gutenberg. Deste modo, por estarmos num momento inicial desta mudança para o formato digital, podemos esperar por alterações na linguagem utilizada para narrar histórias.

Já Cássio Pantaleoni fez comentários sobre a dificuldade existente entre os leitores para a concentração atenta, um dos requisitos necessários para a apreciação da literatura. A “perda da linguagem”, isto é, o poder de interpretação de textos, se mostra mais sensível às alterações tecnológicas. Se hoje em dia as redes sociais são o fórum público de discussão de ideias (os famosos “textões” de opinião), a nova tecnologia não está sendo utilizada (ou o público não está suficientemente equipado) para realizar uma leitura atenta e uma reflexão profunda do conteúdo a que tem acesso. A internet, fica a pergunta, é a causa do problema ou é o seu reflexo?

Nos momentos finais do debate, Spalding faz o diagnóstico final (para ele): sim, é possível acreditar no fim do livro em papel. Por quê, pergunta-se o mais incrédulo ouvinte (eu incluso). Simples: a cultura livresca é uma de mercado, e se não há consumidor, o mercado se retrai. Inclusive, aprofunda ele, é de se notar que os e-books surgem no mercado mais por pressão dos editores do que dos leitores — ao contrário do que ocorreu com o mercado fonográfico, no qual os consumidores arregaçaram as mangas e criaram um mercado (mesmo que ilegal) de distribuição exclusivamente digital.

O jornalista, contudo, pede que não se compare tão diretamente os dois mercados — por exemplo citando o livro de vinil como exemplo de como as coisas analógicas persistem: o vinil é elitizado e não é mainstream, logo, ainda é uma questão de nicho (e de moda). Para complicar ainda mais o caso dos livros (em geral, tanto em papel quanto digital), ele aponta que há cidades no interior do Brasil que vivem (e muito bem) sem acesso a livrarias locais, demonstrando que este mercado não é essencial e que, sim, comunidades podem existir sem ele.

E então, o que fazer se estamos cada vez menos preparados para a leitura atenta* (condição necessária para a fruição do texto escrito)? E se lermos menos, menos consumirmos livros, causando com isso a diminuição do mercado? O que fazer se o livro (ao menos em papel) se tornar um objeto ainda mais elitizado do que já é?

A resposta é tão simples de esbravejar quanto difícil de implementar: devemos investir em educação.

Pessoas aprendem a ler por exemplo e por costume — quanto mais exposta à leitura a pessoa é, tanto mais provável que ela se torne leitora frequente. Se os pais já não tem o costume de ler (ou de  ter livros em casa), infelizmente se delega à escola a responsabilidade pela aproximação ao texto escrito (e à sua reflexão). Bibliotecas, neste caso, são essenciais, uma vez que resolvem a questão do acesso ao livro — e, talvez, inclusive possam diminuir o problema da reflexão através de grupos de leitura e eventos temáticos. Mesmo que possam existir comunidades sem mercado livreiro, dificilmente elas sobrevivem sem acesso a livros.

Podemos dizer, portanto, que o leitor não se forma no ar, por milagre. É a exposição ao livro e à leitura, a debates e discussões sobre os textos, que formam o leitor. E não precisaremos de livro digital se não houver leitores.

* Sobre a dificuldade da leitura atenta: não se trata apenas de uma questão de educação e exposição. O próprio mercado de trabalho, e pressões sociais também, acabam por estimular a execução de atividades e consumo de informações em paralelo, com pouco foco em cada uma delas. Este assunto, porém, deve ser tratado em outro momento e com atenção especial.