O Gestor recém-formado

Há algum tempo atrás uma professora da faculdade me solicitou um depoimento sobre como eu me senti gerenciando uma biblioteca na condição de recém-formado — pontos de segurança e insegurança, o que havia de contraste entre a faculdade e a vida profissional. Talvez este relato não seja muito adequado ao que ela solicitou pontualmente, mas escrevo de qualquer forma. Lembrando: logo depois de formado já escrevi um texto semelhante, mas com outro enfoque.

O bacharelado não vai te preparar para o mercado

Antes de tudo é necessário dizer o seguinte: não, a faculdade não vai te preparar para o mercado de trabalho. Compreendido? A função da faculdade não é essa (um estágio, sim, é mais provável que consiga te apresentar o mercado como ele é). A função da faculdade é te apresentar o mundo da Academia — aquela que faz ciência. Um curso técnico, profissionalizante ou tecnólogo, sim… talvez a função destes seja mais ligada a entregar profissionais prontos para o mercado de trabalho. Um bacharelado, como é o caso da Biblioteconomia, serve para te abrir os olhos: existe mais coisa no mundo, e se tu quiser, pode enveredar pela pesquisa científica (que é a meta da pós-graduação).

Portanto, se eu ouvir mais uma vez que “a faculdade não nos prepara pro mercado de trabalho” eu vou ser obrigado a dizer “engole o choro” — com mais ou menos educação, dependendo do nosso tipo de relacionamento. Não: o bacharelado em Biblioteconomia não precisa de mais disciplinas sobre como operar softwares específicos. O software é a ferramenta e os estudantes estão lá pra aprender por que e como a ferramenta foi feita genericamente, quais critérios de usabilidade eu preciso ter e quais soluções ou problemas ela pode me gerar. A mesma coisa para as outras facetas da área.

E, então, entramos no curso de Biblioteconomia propriamente dito.

Quando estudei, ele era baseado em quatro temas, acredito: o processamento técnico (representação descritiva/catalogação, representação temática/classificação, uma disciplina eletiva de restauro e conservação, etc), função social da biblioteca (leitura e sociedade, literacia informacional, educação de usuários, etc), as áreas correlatas (história da escrita, sociologia, psicologia das relações humanas, etc), e a gestão (gestão física de uma biblioteca através do layout, gestão de processos como o marketing e planejamento, gestão de serviços e ferramentas, gestão de carreira em uma disciplina de consultoria, etc). E conforme dito antes: todos estes tópicos são abordados não com a finalidade de exauri-los (o que seria impossível, então chega de fazer careta), e sim para sinalizar: o mundo é maior do que tu imagina, aproveita pra descobrir o que te desperta mais interesse.

Eu descobri que eu preciso ser profissional

Conforme comentei em outro texto, depois de formado fiquei um ano trabalhando como consultor — e obviamente o que eu mais precisei ter depois de formado a faculdade me ofereceu apenas superficialmente. Eu precisava de contatos, de clientes e de profissionalismo. Contatos e clientes a gente faz na faculdade, com indicações de amigos. Também ajuda ter o nome divulgado em redes sociais, listas de discussão, essas coisas. E profissionalismo a gente aprende em casa — noção de prazos, organização, responsabilidade, confiabilidade, foco em qualidade… tudo isso se desenvolve, mas definitivamente não em uma disciplina de faculdade porque não são fins em si próprios. Isso é tecido intersticial gerado conforme tu te desenvolve, com cada desafio e projeto.

Uma dica pra desenvolver essas características é se aproximar de pessoas que você identifique como profissionais — tem gente que é boa pra ter como amigo e tem gente que é boa pra ter como colega (tem gente que é boa pra ter como os dois, claro). Se a pessoa não aprendeu nada sobre normatização, talvez não seja uma boa se juntar a ela pra fazer trabalho. Se a pessoa não aprendeu que em um grupo há responsabilidades e sempre entrega coisa pela metade, talvez ela não seja uma boa parceira de negócios. Claro: todo mundo muda e cresce e se desenvolve. E daí eu descobri outra coisa.

Eu descobri que gestor tem que desenvolver pessoas (inclusive a si próprio)

Sim. Acho que a parte mais difícil até hoje no meu trabalho é desenvolver pessoas. Porque é fácil eu ter noção do que eu quero, de onde eu quero chegar e de qual apresentação e conteúdo eu preciso que seja entregue. Difícil é transmitir isso para os outros, conseguir gerenciar meu tempo para treiná-los e acompanhá-los (e depois revisar o trabalho), conseguir dizer “Você fez muita, mas muita merda” de forma que essa pessoa ainda queira continuar tentando (às vezes é bom que desistam, ou você pode desistir delas — cada caso é um caso).

Também é muito difícil ter que lidar com formas de profissionalismo diferentes. Pra algumas pessoas atender telefonemas durante reuniões é aceitável. Pra algumas pessoas quebrar regras no atendimento para “flexibilizar” e para “dar uma mãozinha pro usuário” é aceitável (ou há níveis de aceitabilidade que variam de acordo com quem julga). Pra algumas pessoas crescer e depois se organizar internamente é aceitável, enquanto outras preferem se organizar internamente para depois crescer. Lidar com subordinados que não entendem patavinas (seja das ferramentas de trabalho, como Excel e Word; seja de noções básicas de profissionalismo, como imagem profissional e pontualidade) e lidar com superiores que têm planos e metas alheios ao teu conhecimento é, definitivamente, o mais complicado. Saber negociar, identificar onde é necessário despender mais tempo e dedicação e o que pode ficar como está é essencial — óbvio que uma mentoria sempre cai bem pra ajudar, ainda mais para quem está começando no mercado de trabalho e chegou de paraquedas ao posto de chefia. Mas nem sempre isso é possível e a pessoa tem que desenvolver a si própria.

E a faculdade com isso?

Acredito que a faculdade me formou bem. Nela eu desenvolvi meu senso de que “gestor bom é gestor desnecessário” (que pode sumir e que o trabalho não para, pois todos sabem o que fazer e como fazer). Nela eu aprendi o nome de algumas coisas que eu espero me ajudarem no futuro: documentos gerenciais, mais especificamente (porque teus superiores não têm obrigação de saber como se gere uma biblioteca, mas tu tem a obrigação de deixar tudo pronto pra eles consultarem caso queiram aprender). Nela eu conheci gente ótima que eu chamo quando tenho uma oportunidade de trabalho imperdível, ou alguma dúvida cachorra que não sei resolver. Nela eu tive noções de basicamente tudo o que eu uso hoje: espaço físico, o que faz um catálogo ser bom, como organizar o setor pra dar respostas úteis aos meus superiores. A faculdade, no entanto, não me preparou para outras coisas: como lidar com subordinados e superiores? como fazer uma cotação em três fornecedores com um prazo de uma semana (ou menos) usando a ferramenta desenvolvida para solucionar genericamente o problema de centenas de outras instituições em software ainda por cima inadequado? como resolver a  bomba que é o catálogo antigo, cheio de erros e inconsistências e mesmo assim continuar catalogando porque não paramos de receber obras novas? como gerenciar meu tempo pra fazer as tarefas administrativas, as tarefas gerenciais e as tarefas de desenvolvimento de pessoas? Enquanto isso, saber usar português pra escrever e-mails formais, reconhecer o valor de pontualidade, cordialidade, asseio e imagem pessoal, disponibilidade e atenção para o que o meu superior pode estar precisando (e talvez nem saiba que exista ou que possa ser conseguido) — nada disso passou perto de nada que eu tenha visto na faculdade.

No quesito “preparo para o mercado de trabalho” eu saí mais satisfeito da faculdade do que insatisfeito — vou mencionar apenas de leve que ainda há muita insatisfação em outros aspectos. Eu tive a oportunidade de ser exposto a coisas tão diversas que são quase opostas (gestão de um prédio? normatização da capa de uma monografia? descrever tematicamente um documento? descrever fisicamente um pano de prato? paleografia e preservação? mas o uso não é o principal inimigo de um livro? mas os livros não foram feitos pra serem usados?) e isso me satisfaz. Eu tive a oportunidade de ver que existe muita coisa que eu posso usar (e já uso) na minha vida profissional — mesmo que pra isso eu pene pra aprender, ou tenha que ler mais, ou tenha que procurar pessoas que me ajudem a resolver o problema. Talvez a satisfação decorra da simples premissa que eu aprendi a aceitar desde o início: a faculdade não tem como objetivo me preparar para o mercado de trabalho.