O Hipertexto digital

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A digitalidade é terreno fértil para a multimídia uma vez que possibilita a junção de diferentes sinais analógicos através de suas representações descontínuas, graças à convergência digital. Esta convergência trata da possibilidade de unificarmos – graças à linguagem binária da informática – sinais analógicos de imagens, sons, textos, adicionados ainda a metainformações que complementam e corrigem os bits principais. Para Negroponte, também, existem cinco formas de transmissão de informação e de entretenimento: por satélite, por radiodifusão, por cabo, telefone e por mídia embalada (NEGROPONTE, 1995), todas elas lidando com o sinal digital, composto unicamente por um fluxo de bits.

O desenvolvimento massivo de hipertextos digitais, contudo, só foi possível com o advento do computador pessoal, que liberou o acesso à produção intelectual on-line. Com um computador e acesso à internet, cada cidadão é capaz de criar sua própria rede de informações, ligá-la a outras e, então, fazer parte do ciberespaço.

Internet map 1024, do artigo Internet de en.Wikipedia.org
Esta imagem baseada em dados de janeiro de 2005 fica evidente a característica reticular da internet. Imagem: “Internet map 1024”, do artigo “Internet” de en.Wikipedia.org

McLuhan (apud ANDREWS, c1995), por exemplo, comenta que as tecnologias apresentam-se como extensões do corpo humano, gerando novas possibilidades e conseqüências. As tecnologias da informação e comunicação, então, servem de auxílio na tarefa de oferecer informação e entretenimento numa sociedade que novamente sofre uma explosão de conhecimento, desta vez através da internet.

Tanto os projetos Memex, de Vannevar Bush, em 1945, Xanadu, de Theodor Nelson, em 1960, quanto a World Wide Web de Tim Berners-Lee, procuravam unificar as composições intelectuais de forma hipertextual. Apenas a última, contudo, obteve sucesso. A modularidade, através dela, foi possível em sua totalidade: cada parte constituinte de um hipertexto pode se tornar um nó da grande rede. Cada imagem, cada vídeo (além, é claro, de cada link) pode ser tornado um acesso a outro documento, além de também ser possível isolá-los do todo e usá-los em separado. Um exemplo disso, proposto por Nelson (TRANSCLUSION, 2008), é atransclusão, um sistema de denominação de trechos de textos para que sejam citados diretamente da fonte, preservando, assim, seu contexto original. Um autor B, por exemplo, retira diretamente do texto A um trecho que deseja citar, não precisando copiar o texto, o que acaba por gerar uma atualização automática toda vez que o texto original for mudado. A utilização deste novo formato de citação e referência acabaria, também, levando ao transcopyright (TRANSCOPYRIGHT, 2008), uma pré-permissão de cópia virtual.

Todo o complexo sistema de referenciação e rede de links poderá ser expresso em um mapa conceitual, como proposto por Lima (2004). Esta técnica representa graficamente as relações entre os conhecimentos de certa área, formando uma rede semântica de visualização facilitada.

Circle Limit III, M. C. Escher (1959), retirada do artigo M.C. Escher da en.Wikipedia.org
A representação hiperbólica do infinito de Escher assemelha-se à representação de partes da internet (imagem anterior). imagem: ”Circle Limit III”, M. C. Escher (1959), retirada do artigo M.C. Escher da en.Wikipedia.org

Para a autora: “O arranjo dos nodos em um browser gráfico, de acordo com o mapa semântico, ilustra os esquemas na estrutura do conhecimento do domínio do hiperdocumento. A visualização de qualquer informação requer três componentes: (a) organização da informação e sua representação espacial visual; (b) sua disponibilização e (c) os mecanismos de interação.” (LIMA, 2004, p. 141),

 

e, para isso, um dos tipos de representação que mais se prestam a tais fins “[ . . . ] são os mapas hiperbólicos, que foram inspirados na obra artística de M.C. Escher [ . . . ]” (LIMA, 2004, p. 141). O artista, mestre dos desenhos impossíveis, em vários de seus desenhos procura representar o infinito em figurações em duas dimensões – exatamente o que se propõe a representação gráfica das redes hipertextuais, que podem ser infinitas em si mesmas.


Referência:
ANDREWS, Jim. Technologies as extensions of ourselves. In: ______. McLuhan reconsidered. [S.l.]: [s.n.], c1995. Disponível on-line: <http://vispo.com/writings/essays/mcluhana.htm#Technologies_as/>. Acesso em: 17 nov. 2008.

LIMA, Gercina Ângela Borém. Mapa conceitual como ferramenta para organi-zação do conhecimento em sistemas de hipertextos e seus aspectos cognitivos.Perspectivas em Ciências da Informação, Belo Horizonte, v. 9, n. 2, p. 134-145, jul./dez. 2004.

NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. Tradução Sérgio Tellaroli. Supervi-são técnica Ricardo Rangel. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.