Onde errei, ou, Não sou mais um bibliotecário universitário

Apesar de dramático — e muito dramático —, não resisti em aproveitar o título de um texto que traduzi em abril, do Tim O’Reilly. Nele, o autor — bem sucedido! — comenta os pontos em que poderia ou devia ter melhorado na gestão de seus negócios. No meu caso, contudo, o nome serve para documentar minha demissão (ou desligamento, conforme a terminologia dominante) do cargo de bibliotecário de uma grande instituição de ensino superior, onde atuei por três anos gerenciado cerca de quatro bibliotecas e cerca de 18 pessoas. Me refiro a “cerca de” não por falta de certeza, mas por entender que aquele era um local de mudanças rápidas, de crescimento feroz e alterações constantes.

Também é válido ressaltar que apesar de chateado — ninguém gosta de ser rejeitado, certo? —, não há choque ou mágoa de minha parte. Vejo a situação toda com certo afastamento, uma vez que já estive do outro lado por diversas vezes e creio que entendo, mesmo que superficialmente, como o processo se dá — seja nos momentos que culminam na decisão de desligar alguém, seja no processo de desligamento em si. Inclusive, um dos projetos deste blog era comentar diversos processos de gestão de pessoas com base no que aprendi — inclusive um dos últimos feedbacks que tive enquanto ainda gestor era “invista em gestão de pessoas”, o que, para deixar ainda mais explícito, significa o seguinte: precisamos de bibliotecários gestores, precisamos de bibliotecários administradores, precisamos de bibliotecários que lidem com pessoas.

E talvez seja este mesmo o cerne da questão. Vejo meu perfil como bastante técnico/teórico e pouco gerencial. Ou melhor: gerencial o suficiente para administrar quatro bibliotecas e 18 pessoas por três anos, mas não o suficiente para manter o fôlego durante o ritmo de crescimento pelo qual a instituição passará este ano. Ainda, para colocar o dedo na ferida, me questiono: quão melhor teria sido meu desempenho se eu tivesse tido uma equipe levemente mais preparada, se eu tivesse tido um trabalho mais forte de desenvolvimento das minhas habilidades? Até mesmo porque, convenhamos, cheguei bastante verde a um posto de gestão.

De qualquer forma, estas elucubrações de nada adiantam. E acredito que aí estejam alguns dos primeiros pontos em que errei (ou fui insuficiente): apenas interesse não basta.

Mais uma vez, apesar de não ter um perfil explicitamente gerencial, acredito que fiz o meu melhor para manter o setor andando nas piores dificuldades (que não eram muitas, e todas relacionadas à crescimento, e não falta dele). Desde a contratação me demonstrei interessado pela instituição, pelas questões de bibliotecas universitárias nacionais e internacionais, até mesmo apresentei uma fala rápida sobre avaliação de bibliotecas pelo MEC em uma Semana Acadêmica da Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (que nunca chegou a virar postagem aqui no blog). Mas nada disso é suficiente. É necessário engajamento com as pessoas e os setores da instituição — não adianta saber que há setores com quem se pode contar quando há necessidade, não adianta saber escrever um e-mail para ser lido por diretores apressados, não adianta chegar à reunião com todo o projeto pronto (do ponto de vista da biblioteca) — é necessária essa comunicação porque há o grande e obscuro Acaso.

As pessoas talvez queiram proximidade, e não apenas eficiência; as pessoas talvez tenham demandas mais urgentes e deixem o teu projeto pronto em stand by até que finalmente possa ser startado; talvez simplesmente não haja como contratar alguém que cuide especificamente das compras e você precisará repensar pela décima vez a divisão das tarefas e a ordem de sua execução para que as aquisições cheguem a tempo (e não chegarão). O Acaso existe, e as pessoas acima de você na linha de comando precisam ou estar cientes de que você está tentando, ou ajudar a apontar um caminho mais equilibrado para as decisões que você precisa tomar.

Entra aí também mais um ponto em que errei: acredito que eu não tenha deixado mais claras as minhas necessidades aos meus gestores. Eu preciso de feedback (e compreendo por que o RH insiste tanto que eu o faça periodicamente com a minha própria equipe). Eu preciso de pessoas qualificadas, e apenas o desconto na mensalidade não me ajudará a qualificar meu processo seletivo. Eu preciso que meus gestores entendam o porquê das minhas prioridades serem prioridades — e entendo que a tarefa deles é realinhar todas as prioridades. Eu preciso conseguir discutir com meu gestor o quão insuficiente é uma resposta que diz que “tudo é prioridade” às minhas exasperações de linha de frente. Eu preciso deixar claro o que está funcionando e o que precisa ser alterado. Acredito que esta foi uma das maiores falhas: a falta de comunicação, de aprender a dar o recado sem soar choroso, de mostrar a realidade sem parecer sabichão. Eu tentei, acreditem, eu tentei. Mas apenas interesse não basta…

Estes pontos anteriores talvez façam referência a uma tendência ainda maior entre bibliotecários, e que permeia todo este texto: marketing pessoal. Isto é: presumindo-se que o seu trabalho é adequado (que você faz “o arroz e feijão do negócio”), deve ser perguntado o quão bem você circula entre os clientes internos, ouve suas necessidades (atenção: muito cuidado para não ouvir as necessidades e crer que se tratam de novas demandas — talvez não possam ser agora, e será necessário alertar os envolvidos de maneira cordial, porém inequívoca!); o quão bem você discute as necessidades do seu setor sem parecer chorão, o quão preparado você está para conseguir explicar no tempo de uma descida de elevador à direção o motivo das coisas estarem como estão.

A responsabilidade pelo desligamento — além do óbvio de ser compartilhada com meus então gestores — é minha, afinal de contas minha cabeça que rolou quando as coisas deixaram de dar certo, e disso eu tenho bastante ciência. Mas também cultivo a sensação de que fiz o que pude, o melhor que pude, dentro das condições que tinha. Contudo, apenas o interesse não basta…

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Com essa nova configuração, volto à dar atenção às minhas atividades de consultoria — normatização (especialmente ABNT), criação de fichas catalográficas, auxílio de pessoas da Academia como “bibliotecário particular“, além das catalogações (acervo bibliográfico, de arte, etc). Também estou disponível para outras demandas — se as tiver, chame!, sou pau pra toda obra. Meu currículo está disponível no meu site/cartão de visita: http://fernandop.info/bibliotecario.

Também tenho feito algumas leituras sobre arte, pois um dos meus interesses pessoais é encontrar paralelos e pontos de tangência entre a Biblioteconomia/Documentação e os processos artísticos — seja produção, preservação, divulgação ou consumo. Acredito que podemos esperar algumas postagens sobre o assunto quando a hora for mais propícia.