Por favor, deixe os livros consultados sobre as mesas

Se você frequenta bibliotecas, é possível que já tenha visto cartazes, avisos ou bilhetes espalhados pelo local com um pedido — Por favor, deixe os livros consultados sobre as mesas (ou deitados sobre as prateleiras). É possível aumentar o tom de apelo com pontos de exclamação: Por favor! Deixe os livros consultados sobre as mesas! O desespero varia de acordo com a quantidade de usuários e o tamanho do acervo.

Bom, também se você não costuma frequentar bibliotecas, já fica o pedido.

Mas por quê?

A (falta de) ordem

O principal motivo é a guarda de livros na ordem correta.

Ok, eu entendo: às vezes os usuários das bibliotecas querem ajudar: pensam em poupar o trabalho da equipe, uma vez que “eu lembro onde o livro estava”. É possível que essas pessoas realmente lembrem (ou, incrível!, essas pessoas saibam ler os números de lombada), ou acreditem que lembrem. Uma vez, por exemplo, um menino me procurou dizendo que não estava conseguindo reguardar o livro que leu porque haviam retirado do lugar os livros que ele usava como marcação para saber onde recolocar o seu.

Também há quem guarde os livros em lugares errados — de propósito. É triste, mas acontece: algumas pessoas acreditam que guardando determinado livro em um lugar esdrúxulo (como na última posição da última estante, independente do seu assunto) facilitará para elas recuperar o livro no futuro, quando voltarem à biblioteca — afinal de contas, se alguém tentar buscá-lo, não o encontrará e não poderá usá-lo.

Seja por cortesia em excesso, ou por sua falta, a guarda correta dos livros nas estantes é essencial para o funcionamento de uma biblioteca. Os números de lombada (aquelas sequências de letras e números na etiqueta na lateral da obra) são o endereço único daquele item na coleção — e por mais que a equipe eventualmente faça leituras de estante (mais sobre isso ao final do texto), um livro perdido no acervo pode nunca mais vir a ser encontrado. E isso significa um livro a menos para todos.

As estatísticas

Outro motivo é a questão estatística: infelizmente as pessoas (inclusive algumas que trabalham em bibliotecas) podem pensar apenas em termos de livros que são emprestados — o chamado “empréstimo domiciliar”, em jargão técnico. Sim: esta é uma boa medida para saber quais obras, autores ou assuntos são os mais interessantes para os leitores, e, eventualmente (especialmente em boas instituições, ou em bibliotecas que são bem mantidas pelos seus governos), levam a um desenvolvimento de coleção mais racional: obras ou assuntos que são muito pesquisados podem vir a ter atenção especial na hora de novas compras de acervo.

Contudo, a biblioteca também é um espaço, e não oferece apenas o serviço de empréstimo domiciliar. Há pessoas que usam as bibliotecas por causa do silêncio e trazem seus próprios livros para estudar. Ou pessoas que querem usar o ar condicionado e o wifi. Ou precisam apenas de uma mesa grande para um trabalho em grupo. E há as pessoas que, pasmem vocês, usam a biblioteca para ler os livros da própria biblioteca, sem levá-los para casa. E esses livros também devem ser contados nas estatísticas: são livros consultados, livros olhados, livros pesquisados, livros que chamaram a atenção de parte da comunidade de usuários daquela biblioteca. E como os funcionários distinguiriam quais foram consultados, se os usuários os guardassem sempre nas estantes?

Ah, sim: a questão estatística é um buraco que fica bem mais embaixo do que geralmente pensamos, especialmente em tempos de “Biblioteconomia baseada em evidências”. A mensuração de itens somente consultados, é apenas uma possibilidade (e sozinha é insuficiente) de medir o interesse dos usuários. Este é um assunto para um texto todo próprio.

O cuidado com os livros

Ainda, outro motivo é a questão da avaliação do estado do acervo. Bibliotecas grandes, com centenas ou milhares de itens na coleção, precisam de grande atenção em relação ao seu acervo, a parte mais frágil dos seus serviços. Livros, mesmo sendo extremamente resistentes, ainda podem ser riscados, rasgados, dobrados, melecados (pois é…). Livros sujos e danificados convidam ao desleixo (afinal, “já estão ruins mesmo…”), diminuindo sua vida útil. E, utilizando a mesma lógica do motivo anterior, se fôssemos considerar apenas as obras que saem para empréstimo, a parcela de itens olhados seria ínfima.

Há, de fato, um processo chamado de leitura de estante, que ocorre com mais ou menos frequência, com mais ou menos atenção, dependendo da biblioteca. Ele é o momento em que alguém revisa item a item a ordem das obras nas estantes, seja manualmente ou com algum leitor automatizado (nas bibliotecas mais modernas, claro), para recuperar livros que foram guardados em lugar errado (por usuários ou funcionários desatentos). Ele é mais focado nas lombadas e suas etiquetas, para que seja o mais ágil possível, e não leva em consideração a avaliação do miolo do livro. Apenas obras muito danificadas são percebidas neste processo — como as que têm grandes empenhamentos e dobras de muitas folhas.

Desta forma, a manipulação do acervo item a item por parte da equipe ajuda a identificar problemas menores. Uma folhada rápida, uma passada de olhos, pelos cortes do livro (como são chamadas suas laterais) já permite perceber livros com orelhas dobradas, manchas no miolo, ou até mesmo evidencia possíveis pragas, como insetos e fungos. Se é impensável revisar item a item todos os livros do acervo, começar pelas obras que os próprios usuários retiram do lugar e eventualmente precisam ser resguardados com cuidado já é de grande ajuda.

Por fim, o pedido!

Então, não leve a mal: apreciamos a cordialidade e o interesse em nos ajudar… Mas, por favor, deixe os livros consultados sobre as mesas.