Tablets em bibliotecas

Sandrine Ferrer, da Euterpe Consulting, ofereceu à comunidade de bibliotecários do departamento Val d’Oise três dias de apresentação, debate e experimentação com tablets para qualificar os serviços das bibliotecas em que trabalham. Aqui está um relato.

Apesar de não ser um fenômeno tão recente, apenas agora as bibliotecas da França têm começado a valorizar os conteúdos digitais — tablets, e-book readers, jogos de videogame… e mesmo assim ainda em número bastante limitado. O departamento Val d’Oise, através da sua Biblioteca Departamental, procura auxiliar as bibliotecas públicas deste território, entre outras coisas, através de financiamento de projetos que visem a oferecer este tipo de serviço, além de formações frequentes sobre o tema.

Contudo, também é necessário compreender o motivo desta valorização do digital. Sandrine comenta que, ao menos na França, 80% das pessoas já têm acesso à internet, o que soa muito bom. Mas também significa que 20% delas não tem uma conexão frequente, o que deixa gente demais de fora. Ainda, com esse aumento do acesso pessoal à rede, se torna cada vez mais necessário renovar a imagem das bibliotecas, modernizando-as, a fim de atrair o público que não as frequenta para, num segundo momento, os fidelizar. E para justificar a necessidade destes investimentos cabe aos bibliotecários ao menos conhecerem e se informarem sobre os dados sobre o uso do digital (e sobre a exclusão digital) para poderem discutir fatos com os legisladores locais. Vale ressaltar que na França a existência de bibliotecas públicas não é uma obrigação por lei e nem mesmo escolas são obrigadas a oferecer acesso a bibliotecas para os estudantes, como no Brasil.

Após conseguir o apoio dos políticos locais, é necessário montar um projeto de estabelecimento do uso das ferramentas digitais para que o esforço seja canalizado de forma construtiva e possa vir a ser continuado. Por exemplo, conhecer as necessidades da comunidade de usuários para então desenvolver projetos que enriqueçam essas experiências é o ideal. Mas também é válido ir além e ultrapassar as necessidades declaradas pelos usuários, já que muitas vezes eles não conseguem exprimir de forma clara o que desejam ou têm em mente apenas usos básicos das ferramentas digitais (como ler e-mails e navegar na internet), o que deixa de fora uma gama de possibilidades lúdicas, pedagógicas e práticas.

Sandrine, nesta série de oficinas específicas sobre tablets, continua suas demonstrações e ressalta a importância de prever uma taxa de renovação dos equipamentos a cada três anos (tanto pelo deterioramento físico, quanto pelas necessidades de técnicas) e comenta que todas as pessoas da equipe da biblioteca precisam estar no mínimo familiarizadas com os tablets para responder perguntas básicas (ligar/desligar, conectar à internet, surfar) e que no mínimo uma pessoa esteja apta a ser o referente técnico e que esteja mais bem capacitada para fazer acompanhamentos e dar aconselhamentos de uso. No projeto de estabelecimento, também é importante definir os motivos para o desenvolvimento do serviço (como é o caso do “modernizar a imagem da biblioteca”), o que será feito e o que será utilizado (quais aplicativos em quais tablets, por exemplo), e os materiais extras que podem vir a ser necessários (como projetores e adaptadores, tutoriais impressos e online). Outra questão importante, também sempre levantado pela palestrante, é o “e depois?” — depois de terminada a atividade com o tablet, o que pode ser feito? Isto é, como “rematerializar” o digital e valorizar os outros serviços da biblioteca?

Para os critérios de seleção de tablets, Sandrine comenta que os aparelhos com sistema operacional Android são os mais comprados atualmente e, portanto, têm mais utilizadores domésticos, pois são preferidos por usuários do Windows. Estes tablets, portanto, podem ser pensados para atividades e oficinas de introdução e iniciação à ferramenta (pois muitas pessoas acabam desconhecendo os produtos antes de comprá-los e não conhecem suas funcionalidades), além de oficinas da “vida prática”, como organização de viagens.

Já os tablets da Apple, os iPads, são mais caros, mas também têm os melhores apps para oficinas de criação literária, musical e audiovisual, além de oferecerem uma maior variedade de jogos e histórias. Para auxiliar na escolha dos aplicativos, foi comentada a iniciativa da Pequena Biblioteca Redonda de criar um catálogo comentado de aplicativos para uso em bibliotecas, o BibApps.com, mas que hoje se encontra desatualizado. Também foi discutida, nestes encontros, a necessidade de variação do conteúdo disponível nos tablets para que eles permaneçam interessantes à comunidade, seja através do empréstimo doméstico ou através do uso exclusivo no local.

Já sobre os tipos de atividades que podem ser desenvolvidas, foram discutidas as oficinas de criação musical, criação de filmes em stop motion, jogos individuais ou em grupos, e hora do conto digital. Para não transformar este texto ele próprio em catálogo de aplicativos, comento brevemente sobre como estas atividades podem ser desenvolvidas, uma vez que será sempre necessário a exploração prévia por parte do bibliotecário das possibilidades, ferramentas e resultados de cada aplicativo.

Para a criação musical, por exemplo, pode-se instigar os participantes sobre um estilo musical específico, trazer à tona questões como ritmo e mostrar diferentes artistas e grupos. Após, o bibliotecário pode demonstrar as principais ferramentas do aplicativo e então deixar a criação ser livre, mediando o seu uso. Uma finalização possível é a apresentação das criações com caixas de som e amplificadores, e também pode-se fazer uma ligação com uma próxima atividade, como a criação audiovisual, que, por sua vez, pode se manter no mesmo estilo da musical, mas com apresentação de diferentes linguagens cinematográficas, estruturas de narração e criação de videoclipes.

Atividades de hora do conto variam também de acordo com os aplicativos usados e com a idade do público. Alguns aplicativos exigem participação ativa na história, com cliques e interações, o que pode funcionar para crianças pequenas e mais jovens. E narrativas mais complexas, e com diálogo, podem ser apresentadas para que os jovens e jovens adultos participem com uma leitura em grupo. O bibliotecário, além de mediador, pode se tornar narrador.

Para os jogos, acontece algo semelhante: conhecer a estrutura e o desenrolar das fases pode aproximar o bibliotecário através do papel de mediador ou de jogador. Grupos podem ser formados, ou campeonatos podem ser organizados, e jogos infantis (como de montagem de personagem e de imitação, como jogos de “seja um cozinheiro“) podem ser usados para explorar vocabulário entre crianças pequenas.

É importante ressaltar que o ideal é que as atividades sejam organizadas para grupos pequenos, de 6 a 7 pessoas, dependendo também da quantidade de bibliotecários disponíveis (dois bibliotecários poderiam gerenciar grupos de até 16 pessoas, por exemplo). Também é necessário, antes de oferecer os tablets, sempre mostrar exemplos do que pode ser feito, do contexto em que estão inseridos os tablets e os usuários e que as ferramentas sejam exploradas antes do início das atividades.

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